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Ano C - III Domingo da Quaresma

Escrito por José Luís. Publicado em Lectio Divina

«Talvez venha a dar frutos»

Jesus ensina-nos a ler a vida à luz da Palavra de Deus. Escutar a voz de Deus nos acontecimentos da história. Viver a vida com a vontade constante de dar. De dar bons frutos. A videira e a figueira representam na Bíblia, frequentemente, o povo de Israel. E se o povo de Deus não der bom fruto (ou se não der fruto nenhum) precisa de se transformar, da mudança, da vida nova. Um povo redimido por Cristo deve edificar com a sua vida um Reino que dê frutos de verdade, de justiça e de paz, de liberdade de vida e esperança. Neste tempo de Quaresma o mesmo é pedido a cada cristão. A cada um de nós. Porque pelos frutos, seremos também nós reconhecidos.

EVANGELHO SEGUNDO S. LUCAS (Lc 13,1-9)

Ano C - III Domingo da Quaresma

Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante. Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’ Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano.

SEGUNDA-FEIRA

PALAVRA

Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam.

Trata-se de um acontecimento histórico-político que sucedera na sua terra e que os Romanos, cujo império se estendia também à Palestina, praticavam à mínima suspeita de revolta. Os judeus estavam escandalizados pela matança, mas também, e sobretudo, pelas circunstâncias em que se dera essa chacina, pois Pilatos quase animalizara e igualara os homens mortos aos animais que eles ofereciam em sacrifício.

MEDITAÇÃO

O Projecto de Deus para a Humanidade é de igualdade para todos. A vida pertença a Deus e a mais ninguém. Entretanto alguns homens arrogam-se o poder de escravizar e mesmo de eliminar outros pelo simples facto de não pensarem do mesmo modo ou de se julgarem superiores a todos. Os mortos eram, para Roma, politicamente culpados porque revoltosos. Jesus nem os condena nem os justifica. Hoje algo de semelhante acontece. Que atitude tomo eu diante dessas situações sejam elas políticas, económicas, sociais ou religiosas? Como julgo os extermínios políticos ou étnicos hoje tão frequentes e monstruosos, em vários países do mundo? Fico indiferente? Quando acontecem em ponto pequeno, mesmo só a nível pessoal, em mim ou ao redor de mim, tomo uma posição de cristão convicto defensor do projecto igualitário de Deus?

ORAÇÃO

Senhor, fazei-me perceber que toda a pessoa que vive a meu lado tem o mesmo direito a ser feliz como eu, e que em nada e por nada a posso usar como objecto do meu egoísmo, nem destruí-la social, afectiva e psicologicamente e muito menos eliminá-la fisicamente. Que esta seja a minha convicção interior e o meu agir, em casa, na família, no trabalho, na escola, no café, na diversão. Que eu contagie felicidade e segurança ao redor de mim e não violência.

ACÇÃO

Procurarei, por palavras ou por gestos e atitudes, pôr-me ao lado de alguém que encontre oprimido, desanimado, amarfanhado, tentando fazer crescer nele a consciência da sua dignidade de pessoa e de filho muito amado de Deus.

TERÇA-FEIRA

PALAVRA

Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo.

A resposta de Jesus, pensando sempre na preparação dos discípulos, tenta alcançar dois objectivos: primeiro eliminar a ideia tradicional de que a desgraça e o castigo são sempre consequência do pecado e do mal feito. Nesse sentido recordemos a figura bíblica de Job paradigma para os judeus da relação pecado-castigo. Jesus desvia as atenções para outro ponto. parte do acontecimento em si para lhes mostrar o que é fundamental e indispensável na vida de cada um: a conversão. E que todos, sem excepção, necessitam deste arrependimento, mesmo aqueles que se têm por justos.

MEDITAÇÃO

Ainda hoje a associação entre o mal feito e castigo é frequente entre o povo e até entre os cristãos com certa cultura. Há uma quantidade de refrães populares e frases feitas que o atestam. E também nós mesmos somos levados pela corrente e vemos no outro que sofre, é maltratado, castigado, morto, antes de tudo a hipótese que ele tenha cometido o mal. Jesus, ao contrário, manda-nos olhar para outro lado: para nós mesmos! Eles não eram mais culpados do que nós, dado que todos nós necessitamos de nos converter. Uma conversão não apenas exterior, mas interior, uma metanóia, que nos leve a prensar e a obrar o bem. Em situações semelhantes qual é a minha primeira reacção interior? Estou muito longe da de Jesus? O que significa para mim converter-me?

ORAÇÃO

Vejo, Senhor, que para Ti contam mais os acontecimentos internos do que os externos: as mortes internas, a queda das torres interiores, as transformações internas. Talvez eu precise de que algo sério aconteça dentro de mim para romper com a anestesia em que vivo. Sou bom de mais para perceber que, precisamente por isso, estou longe de Ti. Não me inquietas, não me perturbas, não me interpelas. Eu vivo e Tu vives. Lado a lado. Sem nos chocarmos. Sem nos comunicarmos. Quase sem nos conhecermos… Porque Tu tens pouco peso ao longo do meu dia, chego à noite sem remorsos. Será que estou mesmo anestesiado e não me dou conta que preciso realmente de conversão, de fazer penitência? Abana-me, Senhor, Mesmo que faças doer.

ACÇÃO

Farei um sério exame de consciência sobre a minha instalação interior, e escolherei um ponto concreto de conversão que o Senhor me pede nesta Quaresma. Será nele que trabalharei durante o dia.

QUARTA-FEIRA

PALAVRA

E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante.

Jesus repete o mesmo raciocínio quanto a esta catástrofe natural como já fizera em relação à chacina feita por mãos humanas. Também aqui secundariza o acontecimento físico e volta-se para a situação interior das pessoas presentes. Nunca condena os que morreram e muito menos os apresenta como pecadores merecedores daquele castigo.

MEDITAÇÃO

Ó Deus, Tu disseste aos primeiros homens: “Multiplicai-vos, enchei a terra”. E assim fizemos. Porém vivemos no meio das incertezas da natureza que nem sempre controlamos e por vezes até criamos uma civilização que acaba por nos destruir. É nesses momentos que nos interrogamos: quem somos nós perante a criação e perante Ti? Tomamos consciência de que toda a nossa vida está montada sobre um risco permanente? Damo-nos conta da precariedade da nossa vida sobre a terra? Por isso Tu voltas a repetir-nos: “Se não vos arrependerdes...” É que se o mal nos domina e não nos convertemos, então, sim, tudo ficará perdido com a morte. Necessitamos de conversão, de virar a integridade da nossa vida para o bem. E o bem, és tu, Senhor!

ORAÇÃO

Estamos a meio da Quaresma, tempo forte de conversão e penitência. Envolvem-nos os constantes convites ao arrependimento, à mudança, à “metanóia”. São todas palavras que ouvimos dominicalmente e por vezes ao longo da semana. Senhor, que eu vença o mal pondo-me ao serviço do bem, ao serviço dos que precisam, dos que não Te conhecem. Que eu sinta que algo em mim se está a transformar nesta Quaresma, nos sentimentos, nos desejos, nos pensamentos, nas atitudes. Que o arrependimento esteja bem dentro de mim e não apenas nas minhas palavras.

ACÇÃO

Na Quaresma falamos muito em: oração, jejum e esmola…Hoje farei uma ou duas renúncias concretas que vão beneficiar os outros, procurando realizá-las sem ostentação e com a alegria que toda a penitência deve trazer.

QUINTA-FEIRA

PALAVRA

Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou.

Esta seria a segunda parte em que está dividido o texto do Evangelho de hoje. Jesus conta-lhes uma parábola. E escolhe a figueira como árvore típica, dado que já os profetas dela se tinham servido para exprimir a infidelidade do povo de Israel. À figueira costumam os profetas e Jesus juntar a vinha como as duas imagens agrícolas mais usadas para retratar Israel - o povo escolhido - quando ele se desvia e não corresponde (não dá frutos) à Aliança feita com Deus.

MEDITAÇÃO

No tempo de Jesus quase todo o Israelita remediado tinha uma figueira, e por isso os ouvintes de Jesus entendiam bem o que Ele estava a contar. A desilusão aqui é que a figueira da parábola não dava frutos. Ocupava um espaço no campo do lavrador, tinha certamente os cuidados deste mas, mesmo assim, não produzia os figos tão desejados. Como se sentiriam interiormente os ouvintes de Jesus ao escutar esta parábola? Igualmente eu me interrogo a mim mesmo. Neste imenso planeta de milhões e milhões de quilómetros quadrados, eu tenho também um espaço que chamo meu. Como o estou a ocupar? Inutilmente? Que frutos estou a dar? Que tipo de frutos Deus e os outros esperam de mim? Será que todos os que me procuram saem de junto de mim desiludidos e com fome? Fome de quê? De um Deus que eu devia testemunhar?

ORAÇÃO

À figueira apenas se lhe pedia o que podia e era seu dever dar: figos! O mesmo me pedis a mim, Senhor: que cumpra com esmero o meu dever diariamente de tal modo que Tu e os meus irmãos encontrem em mim os frutos que esperam e que eu posso dar. Apenas isto Te peço hoje, Senhor, pois sei que se não Te desiludir neste campo, Tu continuarás a cuidar de mim, a tratar-me com carinho. Ajuda-me, Senhor, e obrigado porque me cuidas com um amor ilimitado.

ACÇÃO

Esforçar-me-ei por não desiludir ninguém, criança ou adulto, que hoje venha ter comigo. Escolherei uma estratégia para não me esquecer (por exemplo: ter sempre perto de mim um fruto qualquer, uma flor…).

SEXTA-FEIRA

PALAVRA

Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’

A lógica do dono da figueira era evidente. Eram já três anos infrutíferos, tempo mais que suficiente para a dever cortar. E por isso dá ordem para o fazer. Não tem direito a estar a esgotar a terra e não produzir frutos. Toda a criação deve dar frutos, cumprindo a missão que Deus a cada um destinou.

MEDITAÇÃO

Deus não mantém ninguém vivo na terra inutilmente. Enquanto aqui estamos todos temos uma missão a cumprir, frutos a dar. Todos os seres vivos e não apenas os humanos. Mas a estes Deus exige uma resposta mais consciente, mais livre, mais alegre, mais amorosa. Se Jesus reage assim com a figueira que dirá da nossa preguiça e da nossa negligência? Onde está a nossa resposta a tanto cuidado, a tanto carinho e a tanto amor com que Deus nos trata? Onde está a preocupação com a conversão do coração, a abertura ao mistério do Reino como dom de amor e como urgência de arrependimento e de preocupação pela felicidade dos outros? Durante esta Quaresma seria bom recordarmos frequentemente esta parábola da figueira.

ORAÇÃO

Tu sabes bem, Senhor, que o nosso problema principal, a nossa escravatura, está na dureza do coração. É de lá que sai tudo o que é impuro…E por isso precisamos da Tua ajuda para vencer a nossa inércia, a nossa malícia, a nossa infrutuosidade. Daí que hoje Te peça que realizes em nós o que prometeste pela boca do profeta Ezequiel: “Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Dentro de vós porei o meu espírito, fazendo com que sigais as minhas leis e obedeçais e pratiqueis os meus preceitos (Ez 36,25-26). Obrigado, Senhor, por mais esta tua generosa gratuidade.

ACÇÃO

Há muita coisa em mim, a nível físico, intelectual, social, laboral, afectivo, espiritual, etc., que ocupa o seu espaço na minha vida. Examinarei com cuidado e em pormenor “o que não dá fruto” e cortá-lo-ei hoje mesmo.

SÁBADO

PALAVRA

Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano.

A espera parecia ter chegado ao fim. Mas intervém o vinhateiro e o tempo alonga-se um pouco mais. Pelo menos um ano. Limitado sim, mas a figueira, simbólica, tem mais uma oportunidade. Se não der fruto, então “o relógio do tempo chegou ao fim”: será cortada!

MEDITAÇÃO

A figueira no Evangelho de São Mateus (21,19) tem menos tempo do que esta: fica logo seca!. São Lucas, o evangelista da misericórdia, concede mais uma oportunidade. A misericórdia de Deus deixa-nos sempre uma esperança, mesma quando a nossa vida é só de aparências, com muitas folhas mas sem frutos. Deus como que quase nos faz sentir que tem necessidade da nossa livre colaboração para fazer com que a nossa vida não seja inútil mas produza frutos de boas obras. Deus não tem interesses em que sejamos figueiras estéreis, antes pelo contrário, a sua glória e a sua felicidade está “em que nós demos muitos frutos”.(Jo 15,16).

ORAÇÃO

Senhor, com que ternura e com que paciência tens esperado por mim, para que eu me converta e Te abra a porta! Hoje vou recordar o soneto de Lope de Vega onde me vejo bastante bem retratado. Rezo-o e medito a partir dele.

                        “Que possuo eu, pois minha amizade procuras?

            Que interesse tens, Jesus meu,

            que à minha porta, coberto de orvalho,

            passas as noites de Inverno escuras?

                        Oh! Quão foram as minhas entranhas duras,

                        pois não te abri! Que estranho desvario

                        se da minha ingratidão o gélido frio

                        secou as chagas dos pés nas plantas puras!

            Quantas vezes o anjo me dizia:

            “Alma, assoma-te agora à janela,

            verás com quanto amor chamar porfia!”

                        E quantas, bondade soberana e bela:

                        “Abrir-Lhe-emos amanhã” eu respondia,

                        para o mesmo responder no outro dia!

 À semelhança do poema, Senhor, que eu não adie todos os dias a minha conversão, e não Te recuse abrir a porta, sempre com a desculpa e a promessa de o fazer no dia seguinte: “Amanhã! Amanhã! Amanhã”.

ACÇÃO

Hoje serei sinal de esperança para alguém que encontre já desiludido, recordando-lhe que Deus nos concede sempre mais uma oportunidade, mas que não a podemos perder quando ela surge. E esta Quaresma pode ser essa oportunidade de renovação interior e de salvação que ninguém pode perder.

P. Luciano Miguel, SDB

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