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Homilia (Catequese) no III Domingo Comum C 2010

Escrito por José Luís. Publicado em Homilia da Semana

1. Mais uma tragédia, a somar ao noticiário da desgraça! “Dezoito homens mortos, na queda da torre de Siloé”! Foi este o episódio, que nos inspirou, a propor, para esta Quaresma, uma semana dedicada à compaixão, com as pessoas vítimas de acidentes e de tragédias! Na altura de programar este tempo, estávamos longe de imaginar uma proposta tão assertiva, e infelizmente tão actual! Do Haiti, à ilha da Madeira, passando agora pelo Chile, sem esquecer os estragos na zona oeste do sul do nosso país, até chegar às portas de nossa casa, este tem sido o Inverno de todas as tragédias! A gente, com tudo isto, vê, ouve e sente uma espécie de abalo interior da fé! Trememos, cá por dentro, dizendo… «Porquê, meu Deus»? 

2. Não faltaram respostas precipitadas à pergunta. Um dos tele-evangelistas mais populares da América declarou publicamente que o terramoto seria uma punição de Deus, levada a cabo contra os infiéis. Muitos haitianos chegaram à mesma conclusão. Um artigo no New York Times (14-1-2010), cita uma mulher que dizia que “Deus está zangado com todos os pecadores, mas em particular com os Haitianos”. Para ela “o sismo é um castigo divino”. Contudo, também afirmou que o evento fortaleceu a sua fé! Respostas semelhantes foram dadas por muitos que, ao longo de noites de total escuridão, com o cheiro a morte no ar, se confortaram cantando hinos de louvor a Deus! E saíam dos escombros, exclamando: Obrigado, Senhor!

3. Porquê, meu Deus? A pergunta volta-nos sempre, como uma réplica do primeiro abalo! Se Deus é simultaneamente todo-poderoso e inteiramente bom, como pode permitir a existência do mal? Como podemos explicar o fenómeno do sofrimento dos inocentes?!

Certamente Deus, que nos julga na verdade e na caridade, não fará tábua rasa dos nossos pecados ou dos nossos actos de amor. Esse juízo, porém, nunca se aplicaria de modo a levar Deus a infligir sofrimento físico ou emocional, sobre pessoas, nações ou povos inteiros! Até ao dia do Juízo Final, o “castigo” divino limitar-se-á – quando muito – ao facto de Deus, tristemente, sofrer connosco as tempestades dos ventos que semeamos, com o nosso desrespeito brutal pelos ritmos da natureza! E poderemos também descobrir em algum sofrimento pessoal, caminhos de Deus, para a nossa conversão. Todavia, o Deus cristão, cuja essência é o amor, este nosso Deus, que Se entregou ao sofrimento e à morte, para daí nos resgatar, não pode ser, em circunstância alguma, um Deus vingativo, cuja “justiça” ultrapassaria a misericórdia e a compaixão!

4. Infelizmente, a maioria dos cristãos tem ainda uma imagem muito infantil de Deus, vendo-O, como um Deus cioso que sabe tudo, ou um Deus caprichoso, que faz tudo o que lhe apetece e se lhe apetece! Não é esse, de facto, o rosto do Deus, que se revelou em Jesus Cristo! Mesmo se o Antigo Testamento, uma ou outra vez, nos sugere a ideia do castigo divino, só poupado pela conversão, a verdade é que, diante de Moisés, Ele Se revelava como um Deus próximo e libertador, um Deus atento ao seu povo, capaz de ver a sua miséria e de escutar o seu clamor. Esta solidariedade de Deus, com toda a dor da condição humana, chegará ao seu extremo na Cruz.

5. Por isso, o nosso olhar de fé, perante o drama do sofrimento, há-de ver-se e rever-se continuamente na Cruz. Aí, na Cruz, Deus ligou-se livre e amavelmente ao sofrimento humano. O “Deus Omnipotente”, fez-Se um de nós, deixou cair e recair sobre Ele as nossas culpas, de modo que a única força que usa é a do poder inerme e enorme do seu amor por nós! “Deus omnipotente que, segundo o pensamento dos filósofos, não podia padecer, revelou-se afinal, em Cristo, como “Deus que se pode compadecer”. Diz-nos ainda o Papa: “O próprio Deus Se fez homem, para poder padecer com o homem, de modo muito real, na carne e no sangue, como nos é demonstrado, na Paixão de Jesus. A partir daí, [isto é, a partir da Paixão de Cristo], entrou em todo o sofrimento humano a presença de Deus, desse Deus, que partilha o sofrimento e a sua suportação! A partir da Paixão de Cristo propaga-se em todo o sofrimento a consolação do amor solidário do nosso Deus” (cf. Bento XVI, Spe Salvi, 39), um Deus, clemente e cheio de compaixão (Sal.102)!

6. Portanto, tudo o que podemos dizer sobre as tragédias, como a do Haiti ou da Madeira, ou a morte de uma criança na estrada, é que Cristo está presente connosco, para compartilhar totalmente a nossa tristeza e dor! Cristo é o Servo Sofredor, que caminha connosco e por nós, carregando a nossa dor, a nossa angústia, os nossos pecados e limites! Cristo desce, repetidamente, às profundezas do nosso abismo, para tomar as nossas mãos e levar-nos da escuridão, para a sua luz radiosa. Para todos os que estão presos debaixo dos escombros, Cristo está lá, a partilhar a sua agonia até ao fim terrível. Está com todos os que choram a morte dos seus queridos, carrega as suas tristezas e as suas angústias. Ele é o “Deus connosco!”. Não, em primeiro lugar, o Deus da justiça e do juízo, mas o Deus de amor infinito, que permanece “em agonia até ao final dos tempos” (Pascal), o Deus clemente e cheio de compaixão!

7. Irmãos e irmãs! A Cruz e a Ressurreição puseram fim à soberania do Mal, sobre o mundo e sobre as nossas vidas. Mas esta luta continua, tal como o pecado continua, como os desastres naturais continuarão, até que Cristo regresse na Sua glória! Não por acaso, diante do sepulcro vazio, o anjo da Páscoa continuará a referir-se a Cristo, como “o Crucificado”. Isso quer dizer, que mesmo Ressuscitado, Cristo continuará a ser, no nosso tempo, “o Crucificado” na vida e na experiência de cada um, que O procura, em primeiro lugar, talvez, na vida dos que clamam por Ele debaixo dos escombros!

Diante da imensa tragédia, do Haiti, da Madeira, do Chile, onde se perpetua a paixão de Cristo, a nossa fé, só pode vencer tamanha prova, se aceitar o desafio da única resposta: a compaixão do coração, através de uma oração serena, de uma atenção pronta e eficaz, e de uma partilha generosa!

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Página dos Leitores no III Domingo da Quaresma C 2010

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