Homilia na Festa da Sagrada Família A

1. A tradição já não é o que era! Mesmo se a “família” é ainda hoje uma instituição altamente apreciada, como valor inestimável, a verdade é que a configuração das famílias tem, na atualidade, contornos, que não se comparam aos de há cinquenta anos. O número crescente de casais à experiência, de uniões de facto, de casamentos apenas pelo civil, de divórcios, de novos casamentos de divorciados, de filhos nascidos fora do casamento, e até de uniões homossexuais, põe em evidência uma realidade nova, a que não escapam as famílias “tradicionais”!

2. Não se vê que haja caminho, na ilusão de um regresso saudosista, que pretenda restaurar uma espécie de “paraíso” em ruinas. Sobre a família, temos hoje e cada vez mais perguntas, do que respostas! Pastores e fiéis perguntam-se, por exemplo: que podemos aprender com estas novas experiências, onde o bem e o mal, o santo e o perverso, os êxitos e os fracassos humanos, andam sempre, mais ou menos, misturados? Que caminhos novos abrem estas realidades, a outras formas de ver e de viver o Evangelho? São algumas questões levantadas, no célebre questionário de preparação, para o próximo Sínodo dos Bispos, em outubro de 2014, sobre «os desafios pastorais da família no contexto da nova evangelização». Sem remédio caseiro - que para o caso não há - penso que todos nós teremos de aprender a escutar, a acompanhar, a dialogar, com todas estas novas formas de preparar, de construir ou de refazer a família, mesmo sem deixarmos de propor um certo ideal e a descoberta de uma certa ordem de valores. Mas tudo isto, sem nunca impor, como lei ou tradição, o que só pode ser escolhido!

3. Sejam quais forem as respostas, aos desafios da família em mutação, nós sabemos, à partida, que a família será sempre o lugar da nossa felicidade, mas de uma felicidade sempre controversa! Mais de 70% dos portugueses continua a associar a felicidade, à vida em casal e em família! Por isso, atrevo-me hoje e aqui, a enunciar oito novas aventuranças da família[1], que nos ajudem a reencontrar essa felicidade, tão controversa, aliás, como as próprias bem-aventuranças:

1. Bem-aventuradas as famílias que entendem a sua missão, como uma arte de hospitalidade. Em família, não somos donos de nada, nem de ninguém: somos elos de uma corrente, companheiros. Acolhamo-nos, portanto, uns aos outros, na gratuidade, desinteressadamente e só assim, a família se tornará «porto de abrigo» para todas as marés.

2.  Bem-aventuradas as famílias que diariamente combatem o analfabetismo dos afetos.Sejamos, em família, artesãos do afeto, num amor que nos aceita por inteiro, que abraça o que somos e o que não somos, o que nós já fomos e aquilo em que nos tornámos. Mesmo se as panelas ou os pratos andarem lá em casa pelo ar, ninguém se deite nem adormeça, sem primeiro fazer as pazes!

3. Bem-aventuradas as famílias que compreendem a importância do inútil.Não deixemos que nenhum membro da família se torne descartável, pelo facto de não ser útil ou lucrativo! Estar juntos, em casa, sem fazer nada, é tão necessário, como trabalhar, para ganhar o pão de cada dia. Os mais novos e os idosos, que não fazem nada, fazem-nos mais falta, do que o trabalho que nos dão! Saibamo-los ouvir e aprender com eles e seguir em frente, com sabedoria!

4. Bem-aventuradas as famílias que cultivam uma arte da lentidão.Na pressão de decidir, precisamos de uma lentidão, que nos proteja das precipitações mecânicas, de gestos cegamente compulsivos, de palavras fatais ou banais. Rezar, juntos, em família, também nos modera a pressa e nos modela na arte do amor paciente de Deus para connosco!

5. Bem-aventuradas as famílias que não deitam fora a caixa dos brinquedos.Em família, brincar é uma coisa tão necessária e tão importante como trabalhar e falar a sério! Brinquem a sério! A sério, brinquem mais uns com os outros.

6. Bem-aventuradas as famílias que arriscam fazer bom uso das crises.Mudar de vida, não significa tornar-se outro, ou, pior ainda, partir para outra… (outra pessoa, outra experiência…). Quanto mais conscientes dos nossos entraves, limites e contradições, mas também das nossas forças e capacidades, tanto mais poderemos dar-nos conta de quem somos e do lugar que ocupamos, na vida dos outros! A crise não se destina a afundar, mas a aprofundar a relação!

7. Bem-aventuradas as famílias que se assumem como um laboratório para a alegria,uma escola do sorriso, um ateliê para a esperança, uma fábrica para o abraço e para a dança. Aquilo que mais pesa na vida é não receber um sorriso, é não se sentir querido. Em vez de crescermos na severidade, na intransigência, na indiferença, na maledicência, no lamento, cresçamos na alegria, na simplicidade, na gratidão e na confiança.

8. Bem-aventuradas as famílias que vivem abertas às surpresas do futuro e põem a sua confiança em Deus.O «sim» do amor, dado, pelo casal, e para sempre, «na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida» conta com a graça do Sacramento do Matrimónio. Esta graça, não é uma decoração para uma cerimónia bonita; é para tornar fortes os casais, para os fazer corajosos, a fim de que possam seguir em frente! Mas se o sonho do casamento se tornar um pesadelo, se algum de vós se sentir rejeitado, tende ainda esta confiança: Deus não desiste de nenhum de vós; o seu amor por cada um de vós não volta atrás!

Todas estas bem-aventuranças, não são mais do que o desenvolvimento daquela outra que não é nova, mas é para todos e é para sempre: “Felizes os que reconhecem o Senhor, felizes os que seguem os seus caminhos” (Sal127/128).


[1] Seguimos aqui, de perto, JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA © SNPC | 14.11.13. Algumas bem-aventuranças foram desenvolvidas com textos do Papa Francisco, especialmente a partir do seu Discurso às famílias,26 de outubro de 2013.

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