Imprimir

Homilia na Quarta-Feira de Cinzas 2013

Escrito por Pe. Amaro Gonçalo. Publicado em Homilia da Semana

«Lembra-te, ó homem, que és pó e ao pós hás de voltar» (Gn 3,19)

1. É de cinzas, este primeiro dia, que assim nos reporta à nossa condição frágil, ao pó da terra, de que fomos feitos, e ao pó da terra, em que seremos desfeitos! Mas é precisamente sobre este mesmo pó da terra, que o Senhor insufla o seu sopro da vida, o seu Espírito Santo (cf. Gn.2.7)e faz de nós os seus filhos viventes! O mesmo Espírito sopra, continuamente, sobre este pó, misturado na água do baptismo, e assim nos molda, como ao barro nas mãos do oleiro, “para chegarmos de coração purificado à celebração do mistério pascal” (oração de bênção das cinzas).O mesmo sopro do Espírito reacende, pois, das cinzas, a nossa vida acinzentada, para fazer brilhar de novo o dom da fé, e atear, com mais fulgor, o fogo do amor de Deus em nós. O Senhor dá-nos este tempo, para nos poupar à desgraça, de uma vida apagada, sem fé, sem esperança e sem amor.

2. Todo o nosso caminho, das cinzas à páscoa, e desde a páscoa ao Pentecostes, não é senão um caminho de reacendimento das cinzas em fogo! O acender do lume novo, na noite de Páscoa, não é senão o sinal deste renascer das cinzas, dessa prontidão das nossas vidas, para içar, de novo, as velas da fé, “para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do nosso encontro com Cristo” (Bento XVI, PF 2).

3. Eis porque, nestes noventa dias, os mais intensos do Ano da fé, 40 antes da Páscoa e 50 desde a Páscoa, propomos, como programa pastoral, “içar as velas da fé, na barca da Igreja… para depois navegar ao sopro do Espírito Santo”. “Içar as velas” é, segundo parece, uma expressão traduzida do francês “hisser le foc”. Mas esta mesma expressão parece ter surgido de uma tradução, oral ou popular, do árabe “ézz al fog” que significaria “puxar para cima”. A ordem náutica, em língua árabe, foi tomada, por assim dizer, à letra do ouvido, pelos nossos europeus, e deu “al fog”, isto é, «ao fogo» ou, em português, «à vela». Esta ingénua associação fonética entre “as velas” de uma barca, que se içam, para que esta avance ao sopro do vento, e “as velas” de cera, que acendemos, no fogo do círio pascal, vem-nos, mesmo a calhar, para o propósito espiritual que nos guia, da Quaresma à Páscoa, neste Ano da Fé: “um tempo precioso, para reavivar a fé em Jesus Cristo” (Bento XVI, Mensagem para a Quaresma 2013 = MQ2013, 4).

4. No fundo, toda a Quaresma, que agora se inicia, a partir das «cinzas», quer levar-nos a «reacender» a chama da nossa fé, que simbolicamente exprimimos, na Liturgia, com o acender das velas, a partir da grande coluna de fogo, que é o círio pascal. Com esse gesto, queremos firmar e afirmar, avivar e renovar a nossa profissão da nossa fé. Este círio funcionará como mastro do nosso barco à vela. Vamos colocá-lo dentro do barco e decorá-lo, até à Páscoa, com os elementos do símbolo do Ano da Fé. No tempo pascal, sobre este círio, iremos desfraldar as velas, ao sopro do Espírito Santo, que conduz a barca da Igreja.

5. Deixemos, então, reacender em nós, o dom da fé, para atear, à nossa volta, o fogo do amor de Deus. Na verdade, “crer no amor que Deus nos tem” (cf. I Jo 4,16)incita-nos e suscita em nós, um amor ainda maior ao próximo. Numa palavra, «crer na caridade, suscita caridade» (Bento XVI, MQ2913,3). E “uma fé sem obras é como uma árvore sem frutos” (Ib.). Por isso, na quaresma intensificaremos, sempre, a par e par, a oração e a partilha, a formação e a ação, o anúncio da Palavra e a caridade. “Como todo o dom de Deus, a fé e a caridade remetem para a ação do mesmo e único Espírito Santo” (Bento XVI, MQ2913,4). Que o seu sopro, levante do pó e das cinzas a nossa vida, reavive a nossa fé, reanime a nossa esperança, reacenda o nosso amor! Vamos a isto, meus irmãos. Toca a “içar as velas da fé, na barca da Igreja… para navegar ao sopro do Espírito Santo”…

Liturgia e Homilia na Quarta-Feira de Cinzas 2013 (59.5 kB)

Comente e partilhe

Share on Myspace