Terça, 16 Fevereiro 2010 22:00
1. São de “compaixão,” as primeiríssimas palavras do canto e da oração, na abertura desta Quaresma! A antífona de entrada constituía uma bela prece de confiança, na compaixão de Deus por nós: “De todos Vos compadeceis, Senhor, e amais tudo quanto fizestes; perdoais aos pecadores arrependidos, porque sois o Senhor nosso Deus” (Sab 11, 24-25.27). Uma prece que faz todo o sentido, porque o nosso Deus - insistia com vigor o profeta Joel - “é clemente e compassivo”. Ao mais pequeno sinal de conversão, o seu brio de amor por nós renova-se, como o orvalho de cada manhã! Na medida em que nos voltamos para o Senhor, com “jejuns, lágrimas e lamentações”, Ele pode derramar, em abundância, sobre a nossa cabeça, o perfume da sua compaixão! Porque «o Senhor tem compaixão do seu Povo»!
2. A “compaixão” será, portanto, o caminho a percorrer, ao longo de toda esta Quaresma de 2010! Uma Quaresma vestida de misericórdia, mais do que sacrifício (Mt.12,7), uma quaresma solidária e compassiva. Não viveremos a Quaresma, olhando para a culpa e o pecado dos outros, mas parando e reparando, olhando e tomando parte do sofrimento do próximo, que, na berma da estrada clama e chama por nós e, na sua indigência, nos obriga a corresponder e a sair de nós mesmos! As práticas sábias e antigas do jejum, da esmola e da oração só hão-de valer, na medida em que nos fizerem sair de nós mesmos, abrindo o nosso “eu”, à comunhão com Deus e graças a Ele, à comunhão com os outros. Isso torna-se possível, através da oração, o incenso que Deus prefere, e da partilha, que só torna mais fácil através do jejum, isto é, através de uma vida mais simples e mais sóbria! A compaixão não se confunde, neste caso, com a simples pena ou o lamento inútil, nem se reduz a uma mera empatia, com aquele que sofre. A compaixão cristã nada tem a ver com este pietismo ou assistencialismo! Pode parecer uma emoção débil, sintoma de fraqueza perante a crueldade do real. Mas não: a compaixão manifesta-se sobretudo no cuidado atento pelo outro, na resposta espontânea à grandeza ou à miséria do irmão; esta compaixão “é sinónimo de solidariedade e de partilha, e é animada pela esperança” diz o Papa Bento XVI! Compadecer-se tem, por isso, a ver com esta capacidade de sofrer com o outro e pelo outro; implica sair de si mesmo, para acolher o outro e tomar como suas a dor e a necessidade do irmão! Desse modo torna-se verdadeira, para nós, a nossa paixão por Deus e torna-se real, para os outros, a paixão de Deus por cada um!
3. Nesta Quaresma, encontraremos, por certo, pessoas feridas e excluídas, despojadas e oprimidas ou reprimidas! Não podemos andar com muitos rodeios, e passar ao lado, como o sacerdote e o levita, na parábola do bom samaritano (Lc.10,25.37). Podemos e devemos curar uma ferida, enxugar uma lágrima, acompanhar uma solidão, prestar um serviço. Não passemos ao lado. Aproximemo-nos. Só aproximando-nos do outro, poderemos vê-lo, cuidar dele, perder algum do nosso tempo e porventura algum do nosso dinheiro! Só, por meio da compaixão, exalaremos o bom odor de Cristo, o Bom Samaritano., que “vem ao encontro de todos os homens, atribulados no corpo ou no espírito e derrama sobre as suas feridas o óleo da consolação e o vinho da esperança” (Prefácio Comum VIII).
4. Queridos irmãos e irmãs: Este é realmente o perfume verdadeiro, com que perfumaremos a nossa cabeça e lavaremos o rosto (Mt.6,17), ao fazermos penitência, nesta Quaresma! De nada nos vale acentuar tanto a culpa e a contrição do nosso pecado pessoal, se não despertarmos em nós a sensibilidade ao sofrimento alheio. Dizia São Bernardo de Claraval, num dos seus famosos sermões: “Há um perfume que ultrapassa de longe o perfume da contrição e o perfume da devoção; chamar-lhe-ei o perfume da compaixão! Compõe-se, com efeito, dos tormentos da pobreza, das angústias em que vivem os oprimidos, das inquietudes da tristeza, das faltas dos pecadores, enfim, de toda a dor dos homens, mesmo dos nossos inimigos. Estes ingredientes parecem indignos e, contudo, o perfume em que entram é superior a todos os outros. É um bálsamo que cura! Assim, um grande número de misérias, reunidas sob um olhar compassivo, são as essências preciosas. Feliz a alma que cuidou de aprovisionar estes aromas, de neles espalhar o óleo da compaixão e de os pôr a ferver no fogo da caridade”!
5. Neste Ano de Missão, deixemos irradiar e espalhar, por toda a parte, este suave perfume da compaixão, este bom odor de Cristo, sempre compassivo e compadecido de nós! Queremos que a nossa Paróquia, através do testemunho de compaixão, dado por cada um dos seus fiéis, se aproxime sempre e cada vez mais dos corações atribulados, abra os olhos, veja e toque as diversas feridas dos seus filhos, para as sarar, com a ternura de Deus, e as perfumar com o suave odor do amor de Cristo!
A nossa proposta concreta vai mesmo ao ponto de sinalizar, com as cruzes da missão 2010, os grandes lugares da compaixão, e de traduzir esta compaixão, semana a semana, em “obras de misericórdia” até chegarmos à Páscoa, com as nossas cruzes floridas, exalando o suave perfume da Ressurreição do Senhor!
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