Quarta, 01 Julho 2009 15:19
1. Vou hoje pregar contra a corrente. Mesmo correndo o risco de ficar sozinho, a pregar, só para mim... Dizem os especialistas, de marketing que o homem de sucesso cultiva a boa imagem, mostra-se forte e seguro, aparenta boa figura, deve ser determinado para vencer, ter jeito para convencer, obra à vista, quanto mais melhor. Seria este, talvez, o perfil exacto do homem do sucesso, do líder vitorioso, do herói, da nossa sociedade pós-moderna. Mesmo que um simples colapso do coração, humilhe qualquer estrela do firmamento terrestre!
2. Mas a Liturgia da Palavra, vai em contra-ciclo, e leva-me a cometer a loucura, de fazer hoje “o elogio da fraqueza”! Uma galeria de figuras bíblicas testemunha a experiência da fraqueza e do fracasso, como um sinal de força e de grandeza.
Comecemos por Ezequiel: É um profeta, derrotado à partida, uma espécie de “pobre tolo” da cidade. Por ele, ficaria em casa. Mas o Espírito fê-lo levantar no seu desânimo e acompanhar o povo no seu exílio. É enviado como profeta, para o meio de um povo rebelde, de cabeça dura e coração obstinado. É chamado a levar o amor de Deus, onde há muito pouco! E a pregar, com pouquíssimas hipóteses de ser ouvido. Mas vai, com uma palavra simples e desarmada, perturbadora e desprezível. O importante não é ter ouvintes! O mais importante é ser fiel à Palavra. A sua presença, de si, foi incómodo pertinente, palavra silenciosa, que fez Deus falar onde outros o quiseram calar!
Paulo: O apóstolo aparece-nos como uma espécie de anti-herói. Não é um derrotado por fora, mas um vencido por dentro. Há nele um «espinho na carne», uma dificuldade invencível, um defeito incorrigível, um problema de saúde, uma questão de temperamento. Não sabemos bem, de que doença, defeito ou sofrimento se trataria. Mas era um espinho na carne, com a dimensão suficiente, para lhe tirar qualquer espécie de vanglória e o tornar mais humilde! Fraquinho, pobre e pecador, rasteirinho, Paulo parte ancorado na graça de Deus. Ele saberá que tudo o que de bom lhe vier a sair das mãos, será sempre obra da graça de Deus e não efeito especial da sua grandeza. «Quando sou fraco, então é que sou forte»! Como quem diz: “Quando sou fraco, deixo cair as minhas armas, confio-me a Deus e é Deus que entra em acção, por mim”. É assim desta debilidade, que Deus precisa, para vencer e manifestar o poder, inerme e enorme, do seu amor!
Por fim, Jesus! Lá vai Ele à sua terra e as coisas correram bem mal. Era conhecido, filho do carpinteiro, primo do amigo, parente do primo... enfim, afinal um homem como os outros, sem estudos, sem ascendência sacerdotal, vindo de uma família normalíssima… comentavam por ali! Como poderia esse Jesus fazer algo de extraordinário? Pensaram os conterrâneos, na sua provinciana e mesquinha visão. Jesus vê-se impotente! E não pôde fazer ali qualquer milagre. De facto, Deus não pode fazer nada, quando nós julgamos poder fazer tudo. Como disse Santo Agostinho “esse Deus que te criou, sem ti, não te salvará sem ti”. Por isso, a falta de fé daquela gente, a sua falta de adesão e de correspondência à Palavra, fechava todas as portas ao milagre. Mas Jesus, não se deixa vencer pelo fracasso. Perdendo em casa, sai pelos arredores, ensinando, sem desanimar nem desistir!
Aqui temos, num tríptico ilustrado de figuras bíblicas, com Jesus, ao meio,oelogio da fraqueza! Mas em todas as experiências de fraqueza, abre-se também uma fresta, para a acção de Deus, uma janela de oportunidade para a sua graça!
3. Meus queridos irmãos e irmãs: Estamos num final de ano lectivo, laboral e pastoral. E pode acontecer que os nossos resultados, em muitas áreas, não sejam os mais brilhantes. A sensação de fracasso, em várias frentes da vida, pode desmoralizar-nos. Pode ser que sintamos, muitas vezes, a nossa impotência, face aos problemas que nos rodeiam, diante do poder desconstrutor da televisão, frente a um ambiente social e cultural, indiferente ou hostil à fé. Na escola, na empresa, entre os amigos, quantas vezes não nos sentiremos sós, a pregar no deserto, a remar contra a corrente, sem resultados animadores?! Mas não percamos a confiança na força própria do bem, que resiste a qualquer erosão do tempo!
4. Li, por exemplo, no jornal de terça-feira passada (Público, 30.06.2009, 4), que dez anos depois, os portugueses não morreriam por ninguém, a não ser pela família! E que a Bíblia e os lideres religiosos pesam mais nas decisões das pessoas que a ciência ou a comunicação social. Mesmo se o individualismo provoca o desinteresse pelas questões sociais e nacionais, há um capital social de valores, que permanece, tais como a fidelidade, o amar e ser amado, a lealdade! Os sociólogos falam na urgência de uma educação para os valores. Vedes: num mundo, de muitas portas fechadas, abre-se sempre uma janela de oportunidade para o evangelho. Vale a pena pregar e testemunhar a força transformadora da fé, no meio do nosso mundo e no mundo do nosso meio.
5. Façamos então da fraqueza a nossa força, sem nunca desesperar, na convicção firme de que o mal não tem futuro! Só o amor, na sua fraqueza e no seu fraquinho, é digno de fé! Ora, meus queridos irmãos e irmãs, “sem fé não há milagres de amor”!
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Página dos Leitores do XIV Domingo do Tempo Comum B 2009
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