Domingo XXIII do Tempo Comum | Ano C

Homilia no XXIII Domingo Comum C 2016

Hoje não me porei a calcular, se tenho por onde acabar a empreitada que sonhei, para este novo ano pastoral, nem me sentarei a considerar se tenho forças para vencer a batalha, contra tudo o que me impede de seguir a Cristo.

Hoje, Nosso Senhor vai-me perdoar, mas vou aproveitar a canonização de Madre Teresa de Calcutá, para deitar mãos às armas, que fizeram dela uma mulher santa, e uma mulher tão franzina como poderosa, uma mulher que não precisou de um cabeção ou de uma cruz peitoral, para influenciar e transformar a Igreja.

Podia aqui apresentar-vos muita da rica artilharia espiritual, com que esta “santa da escuridão” respondeu à sede que Jesus tem de nós (cf. Jo 19,28) e que nós temos d’Ele. Mas, à boa maneira do Papa Francisco, vamos pegar apenas em três armas. São bastantes, para não fazermos torres no ar, nem figuras tristes na nossa batalha, contra o mal e pelo bem.

A PRIMEIRA ARMA, QUE NÃO PODIA FALTAR, É A ORAÇÃO!

Conta o Cardeal Ângelo Comastri: «A Madre Teresa olhou-me com dois olhos límpidos e penetrantes. E, logo de seguida, perguntou-me: ‘Quantas horas reza por dia?’. Eu fiquei surpreendido com essa pergunta e tentei defender-me dizendo: ‘Madre, da senhora eu esperava um chamamento à caridade, um convite a amar mais os pobres. Por que me pergunta quantas horas eu rezo?’. A Madre Teresa agarrou as minhas mãos, apertou-as entre as dela, como que para me transmitir o que lhe ia no coração, e segredou-me: ‘Meu filho, sem Deus nós somos pobres demais para ajudar os pobres! Lembre-se: eu sou apenas uma pobre mulher que reza. Rezando, Deus coloca o Seu amor no meu coração e assim eu posso amar os pobres. Rezando!’. O segredo de Madre Teresa está todo aqui», comenta o Cardeal. Madre Teresa iniciava o seu dia, participando na Santa Missa e terminava-o com a adoração a Jesus, no Santíssimo Sacramento. Quando aumentava o tempo de trabalho, ela aumentava ainda mais o tempo da oração. Por isso, escreveu, com grande sabedoria: «O fruto da oração é a fé, o fruto da fé é o amor, o fruto do amor é o serviço e o fruto do serviço é a paz».

A SEGUNDA ARMA, QUE BEM PODIA SER A PRIMEIRA E A ÚLTIMA, É A CARIDADE!

Missionária da Caridade, Madre Teresa foi precisamente isto, de nome e de facto. A fundadora dos Missionários e das Missionárias da Caridade é hoje, em todo o mundo, dentro e fora da Igreja, a imagem feminina do Bom Samaritano: ela ia a toda a parte, para servir Cristo, nos mais pobres entre os pobres. Nem conflitos, nem guerras a impediam. Segundo os últimos dados disponíveis, o seu Instituto tem hoje 5.305 membros, em 758 casas, distribuídas em mais de 130 países. Ela escolheu ser não apenas a mais pequena, mas a serva dos mais pequeninos. A sua grandeza reside na sua capacidade de se doar sem calcular o custo, de se doar "até doer". Escreveu ela: «Dedicamos o nosso serviço àqueles que consideramos os mais pobres entre os pobres espiritualmente, aqueles que não são amados, não são queridos, não são assistidos, pessoas que ninguém ama». Ela desejava ser um "sinal do amor de Deus, da presença de Deus, da compaixão de Deus" e, desta forma, recordar a todos o valor e a dignidade de cada filho de Deus, "criado para amar e para ser amado". Era assim que Madre Teresa "levava as almas para Deus e Deus às almas", aliviando a sede de Cristo (cf. Jo 19,28), sobretudo nas pessoas mais necessitadas, cuja visão de Deus tinha sido ofuscada pelo sofrimento e pela dor. Amar os não amados, na escola, na família, na sociedade, na Igreja, eis o grande desafio de Madre Teresa, para este tempo. A respeito do seu sentido e prática da caridade, diz o Papa Francisco: «Há uma expressão de Madre Teresa que gostaria que servisse de cenário à minha reflexão: “Nós não somos uma ONG. As ONG’s trabalham para um projeto; nós trabalhamos para Alguém”. Por isso também eu repito que a Igreja não é uma ONG, porque trabalha para Cristo e para os pobres, nos quais vive Cristo».

A TERCEIRA ARMA, QUE BEM PODIA SER A PRIMEIRA E É IRMÃ GÉMEA DA SEGUNDA, É A MISERICÓRDIA!

A misericórdia é, no seu núcleo, uma virtude espiritual, mas o Papa Francisco tem insistido, ao longo deste ano que, para ser autêntica, a misericórdia deve manifestar-se em ações concretas de serviço. Neste ano, somos chamados a redescobrir, a valorizar e a praticar, com alegria, as obras de misericórdia corporais e espirituais. Ora, poucas figuras católicas, alguma vez, e provavelmente nenhuma no seu tempo, ilustraram melhor esse impulso para a misericórdia concreta, do que Madre Teresa, desde os centros para doentes com SIDA às casas de acolhimento para crianças perdidas e refugiados. Não houve qualquer espécie de sofrimento humano a que ela não tivesse dado uma resposta prática. Nesse sentido, Santa Teresa de Calcutá ficará para sempre como uma espécie de "manual de como fazer misericórdia", em carne e osso, uma espécie de “guia do utilizador” para saber o que é, na prática, a misericórdia. Daqui por diante, o Papa Francisco não tem de oferecer qualquer explicação detalhada do que é a misericórdia; tudo o que tem de fazer é apontar para Madre Teresa e dizer-nos: «Procurai fazer como ela».

Por tudo isto, não é temeridade dizer que o Ano da Misericórdia alcança, com esta canonização de Madre Teresa, o seu auge espiritual. E nós estamos felizes, porque, como ela própria escreveu: “Se eu alguma vez vier a ser santa, serei com certeza uma santa da escuridão. Hei de estar permanentemente fora do céu a iluminar os que na terra se encontram na escuridão”. Também nós lhe diremos, como Jesus, na Sua sede: “Vem, Madre Teresa; sê a minha luz”!

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