Domingo XXII do Tempo Comum | Ano C

Homilia no XXII Domingo Comum C 2016

1.Não há almoços grátis”! Assim se diz, na gíria popular, quando se desconfia da generosidade, de quem se excede na sua boa vontade, no elogio, no convite, ou na bondade dos gestos! Dar, sem interesse, dar sem esperar nada em troca, dar pela simples alegria do dom, dar por dever de justiça ou por impulso de caridade, parece hoje tão anormal, que um qualquer gesto gratuito cai imediatamente sob a suspeita, de algum interesse oculto! Como se diz noutro provérbio popular português, «Quando a esmola é grande, até o pobre desconfia». E, todavia, a bem-aventurança de Jesus, no Evangelho de hoje é, a este respeito, desconcertante: “Serás feliz, por eles, os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos, não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos” (Lc 14,14).

2. Este é o primeiro desafio, que a Palavra de Deus, nos deixa a todos, nesta reta final das férias, e no limiar de um novo ano pastoral: cultivar a gratuidade, dar de graça, servir sem interesse, trazer para a nossa mesa, seja a da refeição, seja a de trabalho, os que não nos bajulam, os que não nos retribuem o convite, os que não nos recompensam, os mais estranhos e inesperados, os mais distantes e afastados. Esta cultura da gratuidade leva-nos a praticar a misericórdia com alegria, a servir os mais pobres, sem nos queixarmos da ingratidão, a trabalhar de graça e boa vontade, na humildade e no escondimento, sem esperar a recompensa ou o aplauso da multidão. Não é nada fácil, num tempo em que tudo se expõe, publicita e comercializa. Um dos sinais mais eloquentes que somos chamados a dar, hoje, numa sociedade tão mercantilizada e dominada pelos interesses dos poderosos, é a gratuidade discreta! «Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10,8)!

3. Mas, do convite generoso e desinteressado, para a mesa, a Palavra de Deus deixava-nos, outro desafio: o da humildade, que nos leva a servir, sem procurar o primeiro lugar! Que grande é a tentação de transformar os nossos dons e serviços, religiosos ou pastorais, graciosos ou voluntários, por mais humildes que sejam, num “tacho”, numa afirmação de poder! Disso temos diariamente maus exemplos, sobretudo no âmbito político e, infelizmente, também nos “corredores da Igreja”, onde se esfuma uma certa mundanidade espiritual. Não procuremos, pois, o primeiro lugar, nem o último. Porque até o último lugar nos pode “inchar” e induzir a uma falsa humildade. Procuremos, sobretudo, ser um lugar para os outros, em vez de ter um lugar, seja onde for, seja para o que for. “Não acredito que cada um tenha o seu lugar. Acredito que cada um é um lugar para os outros”, escreveu Daniel Faria (cf. O Livro de Joaquim).

4. E, por isso, na perspetiva de um novo ano pastoral, que se avizinha, valeria a pena, nestes últimos dias de agosto, cada um perguntar-se: Qual o lugar em que o Senhor me quer transformar, para servir a comunidade? Podiam ser mais, mas ficam apenas três perguntas, para exame espiritual e pastoral:

4.1. Nesta comunidade, sou um “lugar sempre ocupado”, pelos meus “espaços pessoais de autonomia e relaxamento” (EG 78), de modo que os outros nunca podem contar comigo, para nada?! Ou estou pronto, a tornar-me um lugar livre, humilde e disponível, para o serviço de Deus e do seu Reino?

4.2. Nesta comunidade, estou no “lugar do morto”, mudo e quedo, ocupando apenas o meu espaço, como um direito adquirido, sem nenhum dever contraído? Ou estou decidido a tomar a iniciativa, de me dispor a servir desinteressadamente, sem esperar outra recompensa, que não seja a graça do Senhor?

4.3. Nesta comunidade, sou um “lugar cativo”, a que estou agarrado, como quem defende “um espaço de poder e de glória humana, que se buscam por qualquer meio, em vez de dar a vida pelos outros, na missão” (EG 80)? Ou sou um “lugar ativo”, recetivo, comprometido, comunicativo, aberto a todos, pronto a mudar de posição, e a servir a Igreja, onde for preciso e como for necessário?

5. Irmãos e irmãs: o Senhor tem um lugar para todos, na sua morada eterna, na mesa desta Eucaristia, e no seio desta comunidade cristã. E nem sequer a humildade nos dá o direito de dizer «Eu não sirvo para nada», para, deste modo, esconder a nossa soberba e justificar a nossa preguiça. Na verdade, “a nossa imperfeição não deve servir de desculpa; pelo contrário, a missão é um estímulo constante, para não nos acomodarmos na mediocridade, mas continuarmos a crescer” (EG 121), na gratuidade, na humildade, no serviço.

Por isso, à mesa, da Eucaristia, ou à mesa de trabalho, há um aviso de alerta, dos serventes, que também aqui tem o seu sentido e lugar: “Cuidado com o tacho... que se pode queimar”.

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