Domingo XXI do Tempo Comum | Ano C

Homilia no XXI Domingo Comum C 2016

Esforçai-vos por entrar pela porta estreita!

Que “porta estreita” é esta, se nos foi aberta, neste ano jubilar, a grande “Porta da misericórdia”? Esta porta é, obviamente, o próprio Jesus, que diz de Si mesmo: “Eu sou a Porta, quem entrar por Mim será salvo(Jo 10,9). Examinemos bem esta porta de salvação, que é Cristo (Jo 10, 9), sob quatro ângulos de visão:

1. Vista de perto, é uma porta estreita!

Seguir Jesus, até ao fim, não nos pede um esforço «assim e assim». Mas um esforço olímpico, que implica lutar com todas as forças, e exige um empenho extremo, num combate, que vai até à agonia, de quem dá o máximo de si, até já não poder mais. A vida cristã é para “atletas de alta competição”, e estes, graças ao exercício espiritual diário, não engordam, com uma vida desregrada; nem se deixam levar pela lei do menor esforço. Antes aspiram à “medida alta” da santidade e lutam por ela até ao fim. Na verdade, se o nosso “eu” estiver dilatado, se o nosso coração estiver atulhado de coisas e loisas, a porta será sempre demasiado estreita, e será tão difícil passar por ela, como um camelo pelo buraco de uma agulha!

Neste ano jubilar, passar por esta Porta estreita, implica fazer-se pequenino, tornar-se criança, desinchar da presunçosa ciência, e, sobretudo, travar um combate paciente contra a mania do «eu», que não dá espaço a Deus nem lugar aos outros.

2. Vista de longe, é uma porta aberta!

Jesus é uma Porta estreita, mas aberta! Esta porta nunca está fechada, durante todo o tempo da nossa vida; mas permanece aberta, e para todos, sem distinções, sem exclusões nem privilégios, porque Jesus não exclui ninguém. E o abraço dado a quem entra na Sua casa é sempre mais largo, que a estreiteza da porta. “Quem transpõe esta porta deve saber qual é a estatura da tolerância: nem demasiado larga, mas suficientemente alta” (NUNO HIGINO, Igreja de Santa Maria. Marco de Canaveses. Siza Vieira, Ed. Paróquia de Fornos, 1998, p.20).

Neste ano jubilar, tenhamos, pois, o cuidado de não fechar a porta escancarada do Seu amor, nem de a trancar, deixando de fora aqueles a quem não é permitida a entrada. Também “a Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai” (EG 47). Que esta porta esteja sempre aberta e alteada, de par em par!

3. Vista do lado de dentro, esta é uma porta que mora à espera!

«Mas Padre, eu certamente estou excluído, porque sou um grande pecador: fiz muitas coisas feias na vida». Não, não estás excluído! Precisamente, por isso, tu és o preferido. Jesus está à tua espera para te abraçar, para te perdoar! Ele mora à tua espera, como o Pai, que avista ao longe, da janela do seu coração, o Filho que regressa. Coragem, anima-te para entrares pela Sua porta. “O degrau é paciência; o umbral, anúncio; o silêncio é o lugar onde baterão as mãos” (Daniel Faria, Poesia, 55).

Neste Ano jubilar, entremos por esta Porta da Misericórdia, de modo a “experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança” (MV 3).

4. Vista, para o lado de fora, é uma porta que nos abre um número infinito de portas!

É curioso, que, quando se sai de uma Igreja ortodoxa, por cima da porta, vista ainda do lado de dentro, está quase sempre representada a imagem do juízo final com as respetivas obras de misericórdia corporais. Assim, como que num jogo de espelhos, esta porta abre-nos um número infinito de portas! Os pobres e pequeninos são a porta para Cristo e, através d’Ele, para o Pai. Em cada pobre e em cada necessitado, o próprio Jesus deixa o seu reflexo, ali mora à nossa espera e bate à nossa porta. Então se atendermos às necessidades dos pobres, encontrá-l’O-emos, e através d’Ele entraremos pela porta, que conduz ao Pai! Não nos basta, portanto, bater com as mãos no peito ou à porta e dizer “Senhor, Senhor” (Mt 7, 21); não é bastante entrar e sair pela porta da Igreja, para “comer e beber com Ele” à mesa da Eucaristia, se antes e depois não O reconhecemos naqueles que nos batem à porta!

Neste Ano da Misericórdia, ao passar por aquela porta, não podemos escapar às palavras do Senhor, com base nas quais seremos julgados: se demos de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede; se acolhemos o estrangeiro e vestimos quem está nu; se reservamos tempo para visitar quem está doente e preso (cf. Mt 25, 31-45)” (MV 15).

À Virgem Maria, Porta do Céu, peçamos que nos ajude a cruzar a porta da misericórdia, a deixar que o seu Filho transforme a nossa existência, como transformou a sua, para anunciar a todos os povos a alegria do Evangelho.

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