Homilia no I Domingo da Quaresma C 2013

1. “O Papa vai renunciar a 28 de Fevereiro”. Estremeci, incrédulo, com a notícia, que me chegava, em primeira mão, pelo testemunho de um casal amigo. Parei tudo o que estava a fazer, e entrei, de imediato, num turbilhão de pensamentos e sentimentos, que me assaltavam, incrédulo, entre a tristeza de uma adeus antecipado, e a admiração, por uma humildade inédita e corajosa. Fugi, a correr, para casa, para ver com os meus próprios olhos, para ouvir de viva voz. E a palavra, de rodapé, em todos os canais de televisão, era a mesma: Renúncia. Bento XVI vai renunciar.

2. “Renúncia” tornou-se então a palavra mais falada e mais ouvida, mais escrita e mais comentada, de toda a semana! O gesto profético, da renúncia ao pontificado, de um Papa, um ancião cansado, e um sábio humilde, que dá pelo nome de Bento XVI, vale bem por todos os seus tratados de teologia, fala mais alto que todas as suas homilias, chega mais longe, que os seus livros ou encíclicas. Eis um gesto, que deu a volta ao mundo, um gesto que faz história, por parte de um Papa, que os menos avisados diziam «passar à história». O grande filósofo grego Aristóteles disse, um dia, que trocaria toda a sua filosofia por um símbolo. E este Papa traduziu toda a sua vida, de padre, de teólogo, de bispo e todo o seu pontificado, num gesto inédito, dizendo com espantosa serenidade: “sim, renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005”.

3. E assim, o Papa fez jus à sua condição de “humilde trabalhador da vinha do Senhor”, com que se apresentou, no dia da sua eleição. Numa humildade, que nos enternece e estremece, Bento XVI veio dizer ao mundo, veio dizer à Igreja, que renuncia, “por não ter forças, para cumprir adequadamente o seu ministério”; renuncia, para dar lugar a outro, em nome do maior bem da Igreja. Com isso, Bento XVI vem dizer a todos os que se julgam os poderosos deste mundo, de dentro ou de fora da Igreja, que os cargos não nos tornam importantes, que os títulos não são a nossa glória, que nenhum poder tem interesse, quando já não servir para servir. E que a oração e o sofrimento, na humildade e no escondimento, são também modos de ser e de servir a Igreja. O seu gesto de renúncia põe assim em causa uma certa forma de estar na Igreja e de pensar a Igreja, e acaba mesmo por denunciar “a hipocrisia religiosa, o comportamento dos que querem aparecer, as atitudes dos que buscam o aplauso e a aprovação” no grande palco deste mundo. Ora, como bem disse o Papa, na passada 4ª feira de cinzas, “o verdadeiro discípulo não se serve a si mesmo ou ao seu “público”, mas serve ao seu Senhor, na simplicidade e na generosidade”. E acrescentou “o nosso testemunho será sempre mais incisivo quanto menos buscarmos a nossa glória” (Homilia, 4ª Feira Cinzas 2013).

4. Queridos irmãos e irmãs: E precisamos nós de melhor comentário ao evangelho das tentações, do que esta renúncia do Papa? O Papa, ao retirar-se de cena, não se importando de «morrer para o mundo», numa vida inteiramente «escondida com Cristo em Deus» (Col.3,3), mostra-nos quanto é preciso superarmos a tentação de sermos importantes, de termos mais, de parecermos bem e de aparecermos muito. Deus, e não a nossa fama, é a prioridade! Deus, e não o nosso prestígio, é a prioridade! O lugar de Deus, e não a nossa posição, é a prioridade! Bento XVI ensina-nos, com este exemplo de renúncia: «Deus, e não eu, é a minha prioridade»!

Foi essa a opção de Jesus, frente ao tentador. As três tentações resumem-se afinal numa só: a de querermos manipular Deus, servindo-nos dEle, para os nossos próprios interesses, para a nossa glória e para o nosso sucesso e prestígio. Jesus renunciou a tudo isso. E, esta semana, o Papa deixou-nos o seu exemplo, para que o façamos também.

5. E a nós, cabe-nos portanto renunciar a outras coisas, para dar o primeiro lugar a Deus, na nossa vida. Estamos na 1ª semana da Quaresma e, dentro da nossa dinâmica pastoral, o desafio é aparelhar a barca e «dizer adeus ao cais». Perguntemo-nos então: Que lugar tem Deus na minha vida? Que terei eu de renunciar, para dizer «adeus ao cais»?Que pesará a mais na “embarcação” da minha vida? O que será preciso eu deixar em terra ou deitar por terra, para que Deus tenha em mim o primeiro lugar? A que bens deste mundo, terei eu de renunciar, para Deus goze de prioridade e o seu amor esteja sempre em primeiro lugar?

Sabemos bem, que hoje não é fácil escolher Deus, pôr de lado tantas coisas, pedir perdão pelos próprios defeitos, dar maior espaço à oração e ao silêncio interior, usar de misericórdia para com todos, escolher um estilo de vida simples e humilde. Num mundo pagão, todos os dias a nossa fé é tentada a entrar na onda deste mundo. E, por isso todos os dias, é preciso fazer escolhas: é sempre a escolha de Deus, a nossa escolha, por Deus. E isso comportará sempre a renúncia a mim mesmo e às minhas coisas. É isso, na prática, o que significa, nesta primeira semana, «dizer adeus ao cais». Isto e nada mais!

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