Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 2008 - Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 2006

Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 2006

"Maria, a Imaculada"? Que tem este título a dizer-nos? A liturgia de hoje esclarece-nos, com duas imagens grandiosas: a da anunciação, no evangelho, e a do primeiro anúncio da salvação, na leitura do livro do Génesis. Comecemos pela imagem da Anunciação e escutemos, de novo, as palavras de saudação do Anjo: «Alegra-te, ó cheia de graça».

I. Eram palavras muito familiares a Maria, palavras que ela, pobre e simples, mulher do povo e mulher de fé, bem conheceria do profeta Sofonias; eram palavras conhecidas, porque dirigidas a um pequeno resto do povo, que permaneceu firme e fiel, face a todas as derrocadas da história. Maria fazia parte desse pequeno resto do Povo de Israel, que se manteve irrepreensível na santidade e firme na esperança do Messias. Em Maria, diríamos, está presente a melhor parte, a parte mais bela, desse pequeno resto, do verdadeiro povo de Sião. Se quiséssemos retomar o símbolo da casa e da árvore, com que marcamos a 1ª semana do Advento, podíamos dizer: Maria é a casa onde Deus quer habitar. É o lugar do seu repouso. Ou então, Maria é o rebento que, na obscura noite invernal da história, brota do tronco abatido de David. Diríamos que em Maria se cumpre aquela palavra do Salmo (67,7): "A terra produziu o seu fruto": Jesus, o fruto bendito do seu ventre. Maria é como que o botão, do qual deriva a nova árvore da redenção, a nova descendência dos redimidos.

II. A segunda imagem, bem mais difícil e obscura, aparecia-nos na primeira leitura do livro do Génesis. Voltemos, com paciência, ao texto:

a) Aparece-nos, na figura típica de Adão e Eva, a imagem de toda a Humanidade, a imagem do Homem: homem e Mulher, criados por Deus. Ambos, se deixaram seduzir pela ideia do poder, pela ideia de uma certa autonomia e liberdade. Eles são, no texto, a imagem do ser humano, que suspeita que Deus lhe tire algo da sua vida, ou da sua liberdade e que nós só seremos plenamente livres, quando O tivermos posto de lado e nos tornarmos independentes do seu amor.

b) Mas o texto sugere outra terrível tentação: a do Homem, homem e mulher, que não deseja receber de Deus a sua existência e a plenitude da sua vida. Quer extrair ele mesmo, da árvore da ciência, o poder de formar e dominar o mundo, de se fazer deus, elevando-se ao nível d'Ele. Aqui Adão e Eva fazem figura da Humanidade que não quer contar com o amor, para vencer o mal; o amor não lhes parece confiável; eles confiam unicamente na ciência, o que lhes dá o poder, com que desejam ter nas suas mãos a própria vida. E ao fazê-lo, confiam na mentira, e assim mergulham a sua vida no vazio e na desgraça.

III. Queridos irmãos e irmãs! Esta narrativa tão antiga descreve não só a história do princípio, mas a história de todos os tempos. Todos trazemos dentro de nós próprios uma gota do veneno daquele modo de pensar e de se comportar. A esta gota de veneno, chamamos pecado original. Este “veneno” inquinou, desde o princípio, o coração do Homem, e com ele se expandiu o mal. E todos experimentamos todos os dias os seus efeitos.

IV. Estaremos então condenados a sofrer a desventura de um pecado alheio? Seremos então vítimas, sem cura, dessa gota de veneno mortal que se transmitiu, de geração em geração, à espécie humana? Não. A mesma página que nos descrevia a queda da humanidade, também nos anunciava, em primeira-mão, a promessa de uma redenção. Lá se dizia que a Mulher havia de esmagar a cabeça da serpente. Da sua linhagem ou da sua descendência, nasceria o Filho de Deus. Assim, sobre a página mais negra da história, vislumbra-se já a alvura da Mulher Imaculada, e por meio dela, a aurora da nossa redenção!

V. A lição comum às duas imagens, é esta: Deus não falha. Ou mais exactamente: no início Deus falha sempre; deixa existir a liberdade do Homem, e este, na sua liberdade, diz continuamente "não". Mas a fantasia de Deus é inesgotável; a força criadora do seu amor é maior do que o nosso "não". Deus não falha, mesmo perante os fracassos sucessivos da Humanidade, pois daí tira novas oportunidades de uma misericórdia sempre maior, que se manifesta de geração em geração. A cada "não" humano é acrescentada por Deus uma nova dimensão do seu amor. Deus, no seu amor criativo e criador, encontra sempre novas formas para alcançar os homens, até encontrar em “Maria” o «sim» da nova Humanidade e no seu seio se fazer Homem.

VI. É sobretudo isto que devemos guardar no coração neste dia da Imaculada: em Maria, Deus faz-se Homem, para salvar o Homem! Maria diz-nos a todos que aquele que se abandona totalmente nas mãos de Deus, não se torna um fantoche de Deus e não perde a sua liberdade. O homem que recorre a Deus, não se torna menor, mas maior. Quanto mais próximo de Deus o homem está, tanto mais próximo está dos homens. Vemo-lo em Maria.

VII. O facto de Maria estar totalmente junto de Deus é a razão pela qual se encontra também próxima dos homens. Por isso, pode ser uma Mãe à qual, em qualquer necessidade, todos podem dirigir-se, porque Ela tudo compreende e para todos constitui a força aberta da bondade criativa de Deus. [Neste dia, creio que Maria se dirige a ti, dizendo-te]:
(podia ser uma voz feminina, a ler este texto, no final da Homilia)

"Meu filho:

Tem a coragem de ousar, com Deus!
Tenta! Não tenhas medo d'Ele!

Tem a coragem de arriscar com a fé!
Tem a coragem de arriscar com a bondade!
Tem a coragem de arriscar com o coração puro!

Compromete-te com Deus,
e a tua vida há-de tornar mais ampla e iluminada,
sem tédio nem tristeza,
repleta de surpresas e de maravilhas!

Estou contigo, meu filho, no teu caminho,
Sou para ti, portadora da luz
que te ajuda a atravessar as noites
da História e da Vida.
Iluminado pela Luz do Meu Filho,
leva esta Luz aos outros,
leva esta certeza e esta confiança,
de que Deus não falha.
E onde Ele está, está o Amor,
E onde está o nosso Deus,
cada Homem é livre, grande e maior”.

Amém!

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