Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 2008 - Sermão a Nossa Senhora da Conceição, em Fregim

Sermão a Nossa Senhora da Conceição, em Fregim

«Senhor, nosso Deus,
pela Imaculada Conceição da Virgem Maria,
preparastes para o vosso Filho,
uma digna morada

(cf. Oração Colecta)!

1. Era assim, neste espírito de preparação para a vinda do Salvador, que rezávamos no início da Eucaristia, que neste Domingo de Advento celebrámos. A Solenidade da Imaculada Conceição há-de ver-se e viver-se, neste preciso clima de preparação, de intensa espera e de desejo ardente, da primeira, da permanente e da última vinda do Salvador. Se há um tempo litúrgico “mariano” por excelência, é este do Advento. Neste II Domingo, reunimo-nos aqui, sob o manto e o olhar de Maria, que viveu esta espera «com inefável amor» (Pref. Advento II), e por isso nos pode «conceder a graça de «caminharmos generosamente ao encontro de Cristo», (Oração Colecta do II Domingo de Advento) seu Filho.

2. Como viveu Maria esta espera do Messias?

a) Viveu-a, antes de mais, como filha de um Povo.

Maria faz parte do Povo de Deus. Ela é a verdadeira Filha de Sião; filha de um Povo que trazia, desde as origens a marca do pecado, mas também voltado para o futuro, na esperança da salvação. Na história antiga deste Povo de Deus, esta esperança, estava além do mais ligada, segundo a Promessa, à descendência de uma Mulher, da qual havia de nascer o Salvador, Aquele, que tem o poder de esmagar a cabeça e vencer o poder do mal, pela raiz. Uma e outra vez, parecia que era desta, e que era de vez, que a Promessa se cumpria. Mas não. Também Deus, no tempo da sua paciência, soube esperar, sem nunca desistir de nós, nem se cansar. Até, um dia, o próprio Deus parar e reparar que, algures, em Nazaré, estava a Mulher que Ele mesmo pensou e preparou, para ser a digna morada do seu Filho: Maria.

Foi Deus que pensou em Maria para digna morada de seu Filho; e neste sentido, Ele próprio a preparou radicalmente, libertando-a de toda a mácula, enchendo-a de toda a graça. Pensando nEla, para digna morada de seu Filho, Deus quis Maria preservada de todo o pecado, liberta de todo o mal; desejou-a pura, santa e imaculada. Toda a graça confiada a Maria, tem em vista este encontro feliz de Deus com a sua criatura, esta resposta total, este «sim» incondicional da pessoa ao seu desígnio de amor e de salvação.

Diríamos que Maria é a última na fila de um Povo inteiro, que há muito esperava pelo Messias. Mas é a primeira, pois O deseja, como ninguém. Ela quer tanto deixar Deus ser, vir e vencer, que, sem contar, lhe apressa a sua chegada. E Deus, de uma passada, desce do seu coração imaculado ao ventre materno, para gerar nela o Filho Eterno, sem nenhum brado, sem nenhum pranto. Tudo num silêncio humilde onde Ela guarda o rumor divino e o segredo inefável do seu único amor. E basta um «sim», sem nada exigir, nem consultar, para o caso, nenhum dos «seus», para se tornar fruto do seu ventre puríssimo, Jesus, o Filho de Deus.

Maria é assim «puro advento», puro acolhimento da graça, pura aceitação do dom, puro coração aberto e envolto pelo amor divino. Em Maria, se manifesta o livre agir e o querer absoluto de Deus. É Deus que tudo faz. E ao homem só é pedido, como a Maria, que deixe Deus fazer, que deixe Deus ser, vir, chegar e vencer...

b) Mas Maria, viveu esta espera, como Mãe.

Mas não é só como Filha de um Povo que Maria espera o Messias. É também como Mãe de Deus, que Ele espera o Filho. Neste Advento, Maria aparece-nos, Mulher grávida, Mãe em expectação, verdadeira «Mãe da espera». Ela «está de esperanças», para usar uma expressão tão antiga e tão bela. Como diz a Liturgia, «Ela esperou com inefável amor» o Messias Prometido. Esperou-o e, pela sua santidade de vida, alcançou-o. Vivendo «sem pecado nem motivo algum de censura», ela «apressou a vinda do dia de Deus».

3. Que espera Maria de nós? Como vive Maria hoje e connosco esta espera, este Advento?

Diz a Liturgia, olhando já não para o princípio da Imaculada, mas para o fim último da vida de Maria: «Elevada à glória do Céu, Maria assiste com amor materno a Igreja, protegendo misericordiosamente os seus passos, enquanto espera a vinda gloriosa do Senhor» (Pref. Nossa Senhora III).

Neste tempo de Advento, a Igreja sente-se acompanhada pelo olhar de Maria, que nos abre os olhos para Jesus e nos ajuda, não tanto a falar muito dEle, mas sobretudo a manifestá-lo e a descobri-lo.

Para dar conta da vinda e da presença de Deus, é preciso estar ali, detido, aos pés de Maria, à espera do impossível. Com o mesmo desejo de salvação, com a mesma atenção silenciosa, com a mesma abertura generosa, com a mesma ânsia da hora de Deus.

4. Quem nos dera um desejo assim, tão desnudado de tudo, como o de Maria, tão cheio dAquele Menino Deus que está ainda por vir. O homem do novo milénio experimenta esta tensão entre o querer tudo e o já não esperar nada. De certo modo, tornamo-nos incapazes de uma verdadeira espera, ou porque vivemos no imediato e conformados com tudo isto, ou porque desesperados, já não estamos realmente empenhados na vinda de N.S.J. Cristo.

Precisamos tanto de aprender de Maria esta espera, activa e «empenhada». Numa vida santa e imaculada. Esperar, como Mãe, cujo amor cresce tanto mais, quanto mais espera o Filho, que lhe está para nascer. Olhai, que basta então parar e até reparar… que é preciso ter pressa e vontade segura de a Ele chegar…

Com Maria, caminhemos generosamente ao encontro do Senhor que veio, que há-de vir e que vem, no seu colo, mais uma vez, no regaço de sua Mãe.

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