Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 2008 - HOMILIA NA SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO C 2004

HOMILIA NA SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO C 2004

1. Depois do valor da espera e da necessidade de um tempo de preparação, eis-nos ainda e, sem perder o rumo, em direcção a Belém, à Casa do Pão, pelos caminhos da família de Nazaré. Tomemos hoje, como especial referência deste caminho, a figura luminosa de Maria, a Mãe de Jesus.

Em Maria, estes dois tempos, o da espera e o da preparação, têm particular expressão. Por um lado, Ela apresenta-se-nos como modelo de espera virginal, pois “esperou com inefável amor”, de tal modo que concebeu depois na carne Aquele que primeiro desejou em seu coração. Por outro lado, ao ser preservada, desde a sua concepção, de qualquer sombra de pecado, Deus preparou para seu Filho uma digna morada. Maria afigura-se-nos assim como figura desta preparação radical. Libertando-a do pecado que, desde as origens afecta a nossa liberdade e capacidade para amar, Deus fez espelhar em Maria, por antecipação e por excelência, o rosto de uma humanidade nova e redimida, graças à obra redentora de seu Filho.

2. A Festa da Imaculada Conceição, coloca-nos, assim, com realismo, entre a maravilha do amor a que somos chamados e a tragédia do pecado, que desvirtua e perverte o dom do amor. E por isso mesmo, coloca-nos perante a necessidade da graça, da redenção, da salvação. E é muito interessante, sobretudo para nós que andamos neste advento «pelos caminhos da família» registar este pormenor: a Sagrada Escritura, ao representar o drama original do pecado e a promessa da salvação, conta-nos uma história de amor do par humano e situa-nos na trama dessa relação conjugal.

3. É uma relação, chamada, desde o princípio, à alegria do dom e da comunhão. O Homem e a mulher não se envergonham da sua nudez, no sentido em que a sua ternura brota da descoberta maravilhada que um faz do outro. Homem e Mulher descobrem-se um no outro, um ao outro, como alguém tão igual a si, como diferente de si. Cada um procura-se no outro, por causa do outro. Neste âmbito do primeiro amor, o desejo é uma pura força de vida e um dom de alegria, que se abre para o par humano em fonte de ternura.

4. Mas este é apenas o lado luminoso e maravilhoso do dom. Porque, na realidade, o homem é tentado pela cobiça, e facilmente transforma o dom em domínio, a ternura em violência, o gozo puro em uso e abuso. O amor é um tesouro, desde sempre ameaçado pela fragilidade do nosso barro humano. O homem que tinha acolhido a Mulher com um grito de alegria incontível (Gén.2,23), ao recebê-la, como carne da sua carne, atribui agora a culpa à Mulher, que Deus lhe dera por consorte e companheira.

5. Somos assim alertados para o dom e para o risco que comporta a vivência da sexualidade e do amor. Pelo que é preciso não cair numa visão diabólica, que só vê o pecado na linguagem e nos gestos de amor, que são em si mesmos dons do criador, cheios de bondade; nem cair numa visão angélica da sexualidade e do amor, como se esse mundo íntimo estivesse livre da ambiguidade e isento do pecado. De facto, chamada a ser experiência do dom e da exultação, a relação de corpo e alma entre homem e mulher, sem a vigilância da ternura e a procura da generosidade, rapidamente se transforma em lugar de domínio e de violência: «o teu desejo impelir-te-á para o teu marido e ele te dominará» (Gén.3,16), diz a Escritura.

6. Quanta profanação da palavra amor, que esconde o egoísmo, a insensibilidade, a incapacidade de ternura e de comunhão. No ser humano, enfraquecido pelo pecado, o seu coração precisa de ser redimido, para realizar a sua vocação de amor. Nesse sentido, a vivência digna da sexualidade e do amor conjugal é uma luta de todos os dias e de toda uma vida, é uma construção generosa de vitória sobre os possíveis desvios. Nós cristãos sabemos que isso é impossível sem a graça de Deus e sem o cultivo humano da virtude da castidade, que anuncia o desejo de viver generosamente o amor e renuncia a experiências sexuais facilitantes. O caminho do amor é o caminho da generosidade e da coragem.

7. Mas no projecto de Deus, o casamento é uma Promessa que Deus não esqueceu, apesar de tudo o que nos factos pareça desmenti-la. Dificilmente o homem acertará com o caminho do bem, se não viver a sua sexualidade como dom e obediência ao plano de Deus. Também aí Maria, no seu amor virginal, nos abre à esperança de um coração novo, redimido pela graça de Cristo. Ela é a primeira criatura de uma humanidade chamada a voltar ao primeiro amor!

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