Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 2008 - Sermão no encerramento da Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

Sermão no encerramento da

Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

Fregim - 2003

1. Às portas do Natal, ouvimos Deus bater à porta. Eis que está à porta e bate (Ap.3,20). Ele sempre bate à nossa porta. Na primeira leitura da celebração da Eucaristia deste dia, era Deus que batia à porta do Paraíso. Batia à porta do Homem, do primeiro e de cada Homem, para lhe perguntar: «Onde estás?».

Mas o homem, das origens e desde as origens até hoje, o homem que pecou, que se trancou dentro de portas, para se defender e isolar de Deus, está fora de casa, fora do espaço onde verdadeiramente é. Fora de si. Fora dos outros. Fora de Deus. Incomunicável.

E por isso, à pergunta de Deus que lhe bate à porta do coração, o homem responde, a tremer, sem dizer onde está. Nem ele sabe porventura onde está. Sabe que não está em Deus. E por isso reage, como a um estranho, com medo de lhe abrir a porta. Medo e vergonha, solidão absoluta de um homem despido e prisioneiro, ao ar livre. «Tive medo e escondi-me». Desabafava ele. E segue-se uma longa conversa, sobre a culpa, que não é solteira e que ele diz ser da mulher. E que a mulher diz não ter, por ser enganada. E, nesta zanga, aquela que era uma relação de amor e de comunhão, está agora viciada pelo engano, pela suspeita, pela divisão.

2. Este era afinal o retrato de uma humanidade ferida pelo pecado, de uma humanidade que fecha umas e outras portas a Deus, de uma humanidade que impede Deus de entrar na sua própria casa, de nos visitar, de se sentar à mesa connosco, de nos sentar à mesa com Ele.

Mas ainda assim, apesar das muitas portas trancadas, Deus sempre abre uma brecha, como quem nos deixa espreitar a luz, pelo buraco da fechadura, e descobrir o segredo para a porta de novo se abrir. Voltando-se para a serpente, afrontando o mal que a todos nos faz rastejar, Deus diz a respeito de uma Mulher: «Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». E tal Mulher tornou-se a “mãe de todos os viventes”, daqueles que pareciam condenados a ser os pobres mortais.

3. Doravante, a história de Deus, é como a de um pobre mendigo que sempre nos bate à porta. Passa à porta de Abraão, para lhe dar uma descendência e a nós um futuro. Abre a Moisés as portas do Mar, para libertar o seu povo. E pelos profetas, abre portas e caminhos de esperança. Deus persegue o Homem, cada homem, na esperança e no desejo de o encontrar em casa.

Até que um dia, Deus bate, de novo, à porta. À porta de uma mulher. Daquela que Ele escolhera, desde toda a eternidade, para se tornar a Mãe de Seu Filho. Vai a Nazaré. E não precisa sequer de bater à porta. A porta estava inteiramente aberta. «Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: Ave, ó cheia de graça, o Senhor está contigo!». Maria está em Deus. Está onde Deus está. Deus está nela e está como que em sua casa. Ele mesmo a preparara, para se tornar “a digna morada de seu Filho”. Maria está cheia e preenchida pela graça, pela presença amorosa do seu Deus. Do Deus em quem espera. Do Deus, o Único por quem espera. Maria soube esperar unicamente de Deus a salvação. A sua pobreza, a sua pequenez converteu se, deste modo, em palco do poder divino. A própria virgindade convém repe¬ti lo atesta que Deus é capaz de inventar uma esperança, onde não há esperança e abrir caminhos no deserto... abrir portas, onde até as janelas se fecham à luz.

4. E Deus espera tudo de Maria, para uma resposta inteira e livre. E Maria, neste encontro, de portas abertas, não é tomada pelo medo, mas pelo temor. Pela certeza da sua pequenez, diante do imenso mistério de Deus. Sem sombra de pecado, Maria diz um «sim».

- Um «sim» incondicional, que permite a Deus entrar, vir e acontecer, e fazer como lhe apetecer.

- Um sim agora, um sim depois. Um sim sempre. Um «sim» permanente: a sua vida inteira foi um sim a Deus e aos homens.

- Um sim gozoso, positivo, não contrariado ou angustiado. Porque é fruto da graça, é um sim generoso e gratuito.

- Um sim humilde, a partir da sua pequenez e pobreza, fiado em Deus e não na sua capacidade ou na sua auto-suficiência;

- Um sim livre, não por medo nem imposição, mas na lucidez e amor.

- Um sim responsável e consciente, ponderado nas suas exigências e possíveis consequências, ainda que arriscado, na confiança que Deus lhe merece.

- Um sim enamorado, como o da noiva de Deus. Deus é todo o seu amor e nada Lhe poderá negar;

- Um sim maternal, com entranhas de Mãe, aberto à ternura e à misericórdia.

- Um sim entregue, sinal de obediência radical; pelo que põe toda a sua vida nas mãos de Deus;

- Um sim reparador, por todos os nãos pronunciados, desde as origens, por todas as rupturas do Homem com Deus; Por este «sim», por esta porta aberta de Maria, abre-se-nos, de novo, a porta do Paraíso, as portas do encontro de toda a humanidade com Deus. Abrem-se as portas ao Redentor. Abrem-se as portas da salvação a toda a humanidade.

5. Que poderíamos aprender de Maria neste advento? Ela ensina-nos, nesse silêncio humilde, a esperança dos pobres. Neste especial tempo de advento, afinal o mais mariano de todos, a Virgem Mãe ensina-nos a não desistir, perante tantas portas, que se nos fecham. A não desesperar, quando, por exemplo, parece esgotado o diálogo no casal, quando se julgam jogadas todas as hipóteses de reconciliação, num intrincado conflito de família, quando já nem encontramos mais portas onde bater, para obter uma ajuda, para encontrar o próprio emprego, quando até se nos fecham as portas do mundo, para a evangelização. É preciso então não desistir. Nem forçar, de modo algum, a porta do paraíso. Porque pior do que nos fecharem todas portas, é não termos as nossas abertas, ao Senhor que vem e até gosta bem de nos surpreender. É preciso, como Maria, deixar apenas Deus entrar, pela brecha do nosso desejo, pela porta aberta do nosso coração, a Deus e ao irmão. Só abrindo estas portas, se terá acesso ao Presépio de Belém.

ImprimirEmail