Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 2008 - Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 2002

Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 2002
II Domingo de Advento B

1. Não sabemos bem quando tudo começou ou se deu. Nem como tal se gerou e – diz o primeiro livro da Bíblia – afinal aconteceu. Mas sabemos exactamente “como” tudo acabou. O Homem, homem e mulher, deixaram-se vencer, pela pressa de ser e de crescer, pelo orgulho de mais ter e de tudo saber, pelo desejo de agir e de seguir os seus passos, fora do olhar amoroso de Deus. Mas quando um e outro julgavam ter chegado com um dedo ao céu, deram-se conta de estar já a pisar a dura terra da solidão. Nessa hora negra da nossa história original, ainda a noite começava e já Deus prometia e anunciava, no preciso Jardim da Criação, um tempo novo, o dia da salvação.

2. Desde então, foi longo, muito longo, o tempo da espera e da preparação. Séculos dos séculos sem fim. Nem os medimos bem. Nem importa se cem… ou quantos além, se «um dia diante do Senhor é como mil anos e mil anos como o dia de ontem que já passou». Importa que a humanidade inteira ficou à espera, prisioneira de um mal que se lhe apegou. Mas certa de que Deus tarda, mas não falta ao que nos prometeu.

3. Esta esperança fez um Povo, que vivia de uma Promessa, que Deus ainda não pagou. Na história antiga deste Povo de Deus havia a esperança, que da descendência de uma Mulher, havia de nascer o Salvador, Aquele, que tem o poder de esmagar a cabeça e vencer o poder do mal, pela raiz. Uma e outra vez, parecia que era desta, e de vez, Mas não. Também Deus, no tempo da sua paciência, soube esperar, sem nunca desistir ou se cansar. Até, um dia, parar e reparar que, algures, em Nazaré, estava a Mulher que Ele mesmo pensou e preparou, para ser a digna morada do seu Filho: Maria.

4. E eis-nos agora em Nazaré. E a gente nem sabe porque é, ali. Apenas se vê bem porquê, pois Deus é tudo e faz o que quer, numa virgem que Lhe dá um «sim» livre e consciente, de filha, de Mãe e de Mulher. Ela é a última na fila de um Povo inteiro, que há muito esperava pelo Messias. Mas é a primeira, porque mais O deseja, como ninguém. Ela quer tanto deixar Deus ser, vir e vencer, que, sem contar, apressa a sua chegada. E Deus, de uma passada, desce do seu coração imaculado ao ventre materno, para gerar nela o Filho Eterno, sem nenhum brado, sem nenhum pranto. Tudo num silêncio humilde onde Ela guarda o rumor divino e o segredo inefável do seu único amor. E basta um «sim», sem nada exigir, nem consultar, para o caso, nenhum dos «seus», para se tornar fruto do seu ventre puríssimo, Jesus, o Filho de Deus.

5. Maria, neste Advento da preparação e da espera da vinda do Salvador, aparece-nos, Mulher grávida, Mãe em expectação, como verdadeira «Mãe da espera». Ela «está de esperanças», para usar uma expressão tão antiga e tão bela. Como diz a Liturgia, «Ela esperou com inefável amor» o Messias Prometido. Esperou-o e, pela sua santidade de vida, alcançou-o. «Sem pecado nem motivo algum de censura», «apressou a vinda do dia de Deus». Ela é como a aurora que descerra a noite escura. E anuncia a Luz, que vindo a este mundo, é mais clara que o dia.

6. Quem nos dera um desejo assim, tão desnudado de tudo, como o de Maria, tão cheio dAquele Menino Deus que está por vir. O homem do novo milénio experimenta esta tensão entre o querer tudo e o já não esperar nada. Falho de paciência, para o que demora e não chega na sua marcada hora. De certo modo, tornamo-nos incapazes de uma verdadeira espera, ou porque vivemos no imediato e conformados com tudo isto, ou porque desesperados, já não estamos realmente empenhados na vinda de N.S.J. Cristo.

Precisamos tanto de aprender de Maria esta espera, activa e «empenhada». Numa vida santa e imaculada. Esperar, como Mãe, cujo amor cresce tanto mais, quanto mais espera o Filho, que lhe está para nascer. Olhai, que basta então parar e até reparar… que é preciso ter pressa e vontade segura de a Ele chegar…

ImprimirEmail