Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 2008 - Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 1998

Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 1998

Regresso ao futuro. Parte II. Continuamos, em Advento, a divisar horizontes de futuro. Voltamos à esperança, a essa flor de advento, pondo, de novo, novas questões: porquê, em vez do sonho realizado de um mundo novo, o pesadelo sofrido de um velho mundo? Porquê, tão distantes do país real as promessas da pátria prometida? Porquê, o deserto da dor em vez do jardim da alegria? Porquê esta demora e esta espera? Não será que Deus se enganou? E as suas Promessas não terão hoje de ser revistas?

Talvez o cenário da 1ª leitura nos ofereça uma resposta, que poupe Deus à vergonha de uma Promessa há tanto tempo por cumprir! Lá, nas origens, quando e onde nem sequer havia jardins proibidos, Deus andava de braço dado com o Homem. Ali, o homem vivia sem medo de rumores inimigos, metendo mãos à obra do Criador. De repente, foi tentado a largar a mão amorosa de Deus, que o fazia crescer, para se entregar sozinho à aventura de uma vida, sem projecto, à sua pequena medida. Quis-se fora de Casa, como Filho rebelde, a viver dos rendimentos recebidos. E, sem se dar conta, alienou a sua vida, pelo preço da sua liberdade. O Dom maior, pelo qual Deus não se impunha mas se oferecia em amor, - a sua liberdade - perdia-se nas teias do orgulho próprio. E, por isso, Deus, fiel a si mesmo, veio de novo. Para recuperar o perdido, para reconstruir a liberdade humana, com a força da sua graça e do seu perdão.

Doravante, esta Terra Prometida da Liberdade, este futuro de sonho, é uma obra que Deus não construirá nunca sem a nossa livre colaboração. É como se, no profundo respeito pela nossa liberdade, Deus dissesse de uma vez para sempre ao Homem: «Eu que te criei sem ti, não te salvarei sem Ti... O meu Reino não se construirá sem a tua liberdade... E a tua liberdade não se resgatará sem a minha graça». Deus, não esperou mais, que encontrar na Terra uma criatura de sonho, onde a sua graça se encontrasse com a nossa liberdade. E foi assim, que na aurora dos novos tempos, Deus «achou graça» a Maria. E «encheu de sua graça» a Virgem de Nazaré. Na cena da anunciação, desenha-se o quadro perfeito do encontro entre a graça de Deus e a liberdade humana de Maria. Deus vem e saúda. «Avé, ó cheia de graça»... Interpela Maria, como filha predilecta do seu amor, e chama-a a responder livremente. Num profundo diálogo de Amor, Maria acolhe a mensagem como surpresa e não como um facto inevitável. Deus não se impõe. Oferece-se no Dom de um Filho. E Maria, tocada pela graça daquele encontro, deixa-se possuir pela força de tão grande amor. Acolhe Jesus, no seu coração, com liberdade própria.

É uma liberdade consciente, que se deixa «perturbar» e interrogar: «como será isto». Mas ao mesmo tempo, uma liberdade, que não se isola na solidão e na concentração sobre si mesma, mas antes se derrama com generosidade, em relações autênticas: com o Pai que a premiou, com o Filho que nela se começa a gerar e com o Espírito que a cobre com a sua sombra. É uma liberdade humilde, que reconhece a sua dependência amorosa: «eis a serva do Senhor». E, por fim, uma liberdade ousada e capaz de confiar: «Faça-se em mim, segundo a tua Palavra»...

Em Maria, a perfeita liberdade do amor, devolveu aos homens a esperança de um mundo novo. Nela, Deus deu corpo e alma à nossa esperança, na Carne de Jesus. Hoje, a nossa Esperança só espera mesmo é por nós. Por um «sim» livre... que deixe afinal Deus cumprir o que prometeu...

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