Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 2008 - Solenidade da Imaculada Conceição 1993

Solenidade da Imaculada Conceição 1993

1. Do homem marcado pelo pecado...

Anda o homem de queda em queda, como peregrino do infinito. Há sempre, no caminho, uma pedra escondida na qual o homem tropeça sem esperar nem querer. Frágil de condição, pecador por natureza, caminha o homem como aprendiz do eterno, em busca de um outro mundo, de uma nova raça, de um novo viver. Eis uma luta permanente, constante. Parece, às vezes, que nada pode o homem contra o seu destino. Marcado pelo pecado, carrega em si a miséria da sua pequenez, a humilhação de homem vencido pelo mal, derrotado pela sua fraqueza e impotência. É assim desde o princípio. Nada de original na queda original. É o homem ferido quando tenta subir acima de Deus, saltar para fora dEle, querendo-se por sua conta e risco. Quis o homem dispensar-se da força e da presença de Deus neste caminho e logo mergulhou no abismo do seu nada, logo percebeu que sem Deus tudo em si e à sua volta se tornara sem beleza nem encanto. É isto o pecado das origens. Querer fazer caminho sem Deus, viver sem Ele, à sua margem. Desde o princípio o homem traz em si esta «marca», «este defeito de fabrico»,esta inclinação para o pecado. Todos o experimentamos.

2. Ao homem salvo pela graça de Deus em Cristo

Diríamos então ser o homem uma criatura condenada por natureza, vítima da sua condição, irremediavelmente perdido? Não. Na hora em que o homem parecia irremediavelmente perdido, escutamos o anúncio da salvação, o anúncio do «sim» de Deus, da fidelidade absoluta de Deus ao seu Amor.Mil vezes o homem diz «não» e cai, mil vezes mil Deus repete o seu «sim» de amor e ternura. Ao anunciar a vitória futura do Homem novo sobre o mal, Deus anunciou o aparecimento da nova Mulher que lhe havia de dar carne e coração. Maria, a Mãe do Salvador.

3. A começar em Maria, «cheia de graça»

Quis Deus vir até nós e vestir a nossa pele, sofrer na nossa Carne. E para o fazer preparou a sua morada, escolheu uma Mulher, cumulou-a de todas as bênçãos, encheu-a de toda a graça. Libertou-a do peso do pecado, salvou-a tendo em vista a obra redentora de seu Filho. Maria é a primeira criatura salva em Jesus Cristo. Ela é a primeira beneficiária do dom absoluto da graça de Deus, do «sim» irrevogável de Deus à Humanidade. NEla Deus refez toda a história, iniciou um tempo novo, em que o homem, embora marcado pelo pecado, vive superiormente animado pela graça.

O poeta Calderón de la Barca diz a dada altura: «Há uma pedra de tropeço no caminho da Vida na qual caem todos os homens. Todos caem mas um ser bondoso os acolhe, cura e salva de suas feridas. Mas ao chegar Maria, Ele a previne para que evite o passo fatal e não seja ferida. Tudo isto em atenção aos méritos do Redentor de quem ia ser Mãe».É um pouco isto o alcance e o significado do dogma da Imaculada Conceição. Há uma criatura da nossa raça que desde o princípio da sua existência permanece na Luz e nunca diminuiu o seu esplendor. Houve alguém sobre quem recaiu o olhar benevolente de Deus e que foi escolhida como digna morada de seu Filho. Esse alguém é Maria, a Mulher Prometida, de quem havia de nascer o Salvador, esse sim, que na Cruz venceu o poder mortífero da serpente e esmagou a força destruidora do mal. Essa vitória chegou ao coração e à vida de cada homem, desde o acontecimento do seu baptismo. Mergulhado nas águas da Vida e enxertado em Jesus Cristo, o homem participa da sua vitória e é acolhe a graça. Desde o baptismo, cada homem, salvo, santo e imaculado, sabe que faz o seu caminho, não como um desgraçado sem esperança de salvação, mas como peregrino salvo e redimido, herdeiro do dom, agraciado pela vida de Deus. E nenhuma queda nos será fatal.

Nesta esperança caminhamos em direcção à Luz. Está entre nós, connosco e à nossa frente, a Mãe, a abrir corações, que sejam neste tempo e neste mundo digna morada de seu Filho.

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