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Homilia no Congresso sobre Francisco Marto

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Minhas irmãs e  meus irmãos , a liturgia convida-nos hoje a celebrar a solenidade do Sagrado Coração de Jesus. É  a festa do amor divino num sinal humano,  o coração do Filho de Deus feito homem. É uma festa cheia de beleza e muito querida ao nosso povo cristão, uma beleza que sobressai se tivermos diante de nós o contexto em que surgiu e se propagou a devoção ao Coração de Jesus através da revelação particular a Santa Margarida Maria  Alacoque.

Do ponto de vista cultural, no século XVII, dominava o iluminismo racionalista que tinha reduzido Deus a um grande arquitecto do mundo que fabricou toda a grande máquina do universo, mas que permanecia longe e distante. E daí surgia a imagem de um Deus longínquo,   demasiado distante para se interessar por nós e para ter algum interesse para  nós.

Por outro lado, do ponto de vista religioso, dominava o jansenismo, essa corrente rigorista que reduzia Deus  a um juiz severo e implacável diante do qual os homens viviam no temor, no tremor e no medo do terror. E no meio de tudo isto estavam ainda uma teologia  escolástica que era como que esquelética (quer dizer um esqueleto  firme mas sem  carne e sem coração), e uma liturgia celebrada em latim ao qual as grandes massas não tinham acesso. Como impedir que estas grandes massas desertassem a fé cristã  e a Igreja de Cristo ? Naturalmente foi por outro caminho. Nosso Senhor escreve direito através de  linhas tortas e vai escrevendo a sua história através das curvas e contracurvas dos homens e mesmo da sua Igreja. E por isso suscitou esta devoção ao Coração de Jesus. Usa com os homens a linguagem mais acessível  e mais entranhada  para a humanidade, como dizia o Cardeal Newman: Cor ad cor loquitur, só o coração é capaz de falar ao coração.

Por isso, o amor de Deus não é um conceito, não é uma abstracção; é um coração. É o coração humano de Cristo,  visibilidade humana do amor divino. O coração é o símbolo de todo o mistério,  de toda a profundidade da pessoa, e quando falamos de coração,  entendemos imediatamente a proximidade, o afecto, a ternura,  a intimidade e, mais ainda, a misericórdia.

Não  é cheia de beleza, porventura, a primeira leitura do profeta Oseias, em que o Senhor usa para com o seu povo e para connosco hoje a linguagem da ternura, da ternura materna e paterna ? “Quando Israel era ainda criança, eu já O amava; do Egipto chamei o meu Filho; eu ensinava Efraím a andar e trazia-o nos braços mas não compreenderam que era eu quem cuidava deles. Atraía-os com laços humanos, com vínculos de amor, tratava-os como quem pega um menino ao colo, inclinava-me para lhes dar de comer. Meu coração agita-se dentro de mim, estremece de compaixão”. Quem não sente aqui toda a carga da ternura paterna e materna do amor divino? É esta a linguagem que as pessoas entendem imediatamente.

Portanto, o amor de Deus palpita num coração humano capaz dum palpitar intenso, terno e apaixonado. Ele palpita de amor pelos homens, por cada homem, por cada um de nós, porque  não ama a humanidade em bloco mas cada um em particular.

Esta devoção é essencialmente cristocêntrica,  convida-nos a elevar o nosso coração e o nosso olhar para Cristo e encontra um fundamento bíblico, um ícone bíblico no  lado trespassado de Cristo na Cruz.  Esse  lado aberto de Cristo na Cruz abre o nosso coração para o infinito da misericórdia de Deus que ultrapassa e supera todas as nossas medidas,  como disse S. Paulo na leitura da  carta aos Efésios.

Nesta contemplação do coração aberto de Cristo, podemos compreender  a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo que ultrapassa todo o conhecimento. E assim somos  totalmente saciados na plenitude de Deus. É um coração aberto como uma fonte  donde jorra, permanentemente e ao longo de todas as gerações,  um caudal de amor e de vida abundante no qual nos saciamos e por isso cantamos no salmo responsorial: ” bebereis com  alegria das fontes da salvação”.

Enfim, dum ponto de vista prático, queria  deixar duas indicações. A primeira é que a nossa fé não se funda, não se fundamenta numa abstracção, num ideal por mais bonito que seja, num conjunto de regras de comportamento, mas funda-se e fundamenta-se no encontro com este mistério do amor que se revela no coração de Cristo à humanidade. É daqui donde tudo parte; aqui está o coração da fé.

Em segundo lugar, só se acede a este amor através de uma experiência de vida,  de quem o acolhe,  de quem o vive e de quem o testemunha. É aquela experiência mística que fizeram os Pastorinhos e que fez Francisco ao associarem juntamente os dois corações, o Coração de Jesus e o Coração de Maria. Naturalmente o Coração de Jesus é o coração do Filho de Deus feito homem, Único; o coração de Maria é o reflexo materno do coração divino, do coração de Cristo e do coração de Deus, para nós também.

Hoje vivemos uma espécie de eclipse cultural de Deus. Temos a impressão que Deus desaparece da cultura e do horizonte dos homens, sobretudo por causa duma atitude de  indiferença mesmo entre aqueles que se dizem crentes e  cristãos. Muitos vivem como se Deus não existisse. Acreditam apenas na cabeça: dizem que Deus existe como dizemos que existiu D. Afonso Henriques.  Mas Deus não está presente, não é fonte de vida, de amor e de dinamismo na sua vida.

Hoje  precisamos de falar de  um modo novo de Deus, que seja capaz de tocar directamente o coração humano, que seja capaz de seduzir o coração humano como seduziu  o coração dos pastorinhos e de tantos de nós. Essa via chama-se a mistagogia. Não é pelos grandes discursos,  nem mesmo pelas grandes homilias que se façam aqui em Fátima que passa esta experiência de Deus para os homens;  é através da contemplação, do acompanhamento que ajuda a entrar neste mistério a pessoa  inteira, corpo,  alma, mente, coração,  sentidos e sentimentos, razão e afecto.  Por isso, esta devoção, esta festa ao Coração de Jesus tem uma sedução  particular para poder falar directamente ao coração humano.

A  festa,  o culto ao Coração de Jesus,  é um culto ao  Amor eterno e santo com que  Deus nos ama. É a expressão do nosso amor para com Deus e também do nosso amor para com os irmãos, englobados todos eles no coração de Deus.

Termino com uma citação do Papa João Paulo II que nos mostra bem esta  beleza e esta riqueza da devoção ao Coração de Jesus como uma escola de mistagogia para viver a nossa fé: 
“Unido ao coração de Cristo, o coração humano aprende a conhecer o sentido verdadeiro e único da vida e do próprio destino, a compreender o valor duma vida autenticamente cristã, a guardar-se de certas perversões do coração,  a unir o amor filial para com Deus ao amor para com próximo. Assim, e  é esta a verdadeira reparação pedida pelo Salvador, sobre as ruínas acumuladas do ódio e da violência  poderá ser edificada a civilização do coração de Cristo que é a civilização do amor”!

+ António Marto, Bispo de Leiria-Fátima

Fonte: Diocese de Leiria Fátima | www.leiria-fatima.pt