Segunda, 10 Agosto 2009 21:18
Minhas irmãs e meus irmãos , a liturgia convida-nos hoje a celebrar a solenidade do Sagrado Coração de Jesus. É a festa do amor divino num sinal humano, o coração do Filho de Deus feito homem. É uma festa cheia de beleza e muito querida ao nosso povo cristão, uma beleza que sobressai se tivermos diante de nós o contexto em que surgiu e se propagou a devoção ao Coração de Jesus através da revelação particular a Santa Margarida Maria Alacoque.
Do ponto de vista cultural, no século XVII, dominava o iluminismo racionalista que tinha reduzido Deus a um grande arquitecto do mundo que fabricou toda a grande máquina do universo, mas que permanecia longe e distante. E daí surgia a imagem de um Deus longínquo, demasiado distante para se interessar por nós e para ter algum interesse para nós.
Por outro lado, do ponto de vista religioso, dominava o jansenismo, essa corrente rigorista que reduzia Deus a um juiz severo e implacável diante do qual os homens viviam no temor, no tremor e no medo do terror. E no meio de tudo isto estavam ainda uma teologia escolástica que era como que esquelética (quer dizer um esqueleto firme mas sem carne e sem coração), e uma liturgia celebrada em latim ao qual as grandes massas não tinham acesso. Como impedir que estas grandes massas desertassem a fé cristã e a Igreja de Cristo ? Naturalmente foi por outro caminho. Nosso Senhor escreve direito através de linhas tortas e vai escrevendo a sua história através das curvas e contracurvas dos homens e mesmo da sua Igreja. E por isso suscitou esta devoção ao Coração de Jesus. Usa com os homens a linguagem mais acessível e mais entranhada para a humanidade, como dizia o Cardeal Newman: Cor ad cor loquitur, só o coração é capaz de falar ao coração.
Por isso, o amor de Deus não é um conceito, não é uma abstracção; é um coração. É o coração humano de Cristo, visibilidade humana do amor divino. O coração é o símbolo de todo o mistério, de toda a profundidade da pessoa, e quando falamos de coração, entendemos imediatamente a proximidade, o afecto, a ternura, a intimidade e, mais ainda, a misericórdia.
Não é cheia de beleza, porventura, a primeira leitura do profeta Oseias, em que o Senhor usa para com o seu povo e para connosco hoje a linguagem da ternura, da ternura materna e paterna ? “Quando Israel era ainda criança, eu já O amava; do Egipto chamei o meu Filho; eu ensinava Efraím a andar e trazia-o nos braços mas não compreenderam que era eu quem cuidava deles. Atraía-os com laços humanos, com vínculos de amor, tratava-os como quem pega um menino ao colo, inclinava-me para lhes dar de comer. Meu coração agita-se dentro de mim, estremece de compaixão”. Quem não sente aqui toda a carga da ternura paterna e materna do amor divino? É esta a linguagem que as pessoas entendem imediatamente.
Portanto, o amor de Deus palpita num coração humano capaz dum palpitar intenso, terno e apaixonado. Ele palpita de amor pelos homens, por cada homem, por cada um de nós, porque não ama a humanidade em bloco mas cada um em particular.
Esta devoção é essencialmente cristocêntrica, convida-nos a elevar o nosso coração e o nosso olhar para Cristo e encontra um fundamento bíblico, um ícone bíblico no lado trespassado de Cristo na Cruz. Esse lado aberto de Cristo na Cruz abre o nosso coração para o infinito da misericórdia de Deus que ultrapassa e supera todas as nossas medidas, como disse S. Paulo na leitura da carta aos Efésios.
Nesta contemplação do coração aberto de Cristo, podemos compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo que ultrapassa todo o conhecimento. E assim somos totalmente saciados na plenitude de Deus. É um coração aberto como uma fonte donde jorra, permanentemente e ao longo de todas as gerações, um caudal de amor e de vida abundante no qual nos saciamos e por isso cantamos no salmo responsorial: ” bebereis com alegria das fontes da salvação”.
Enfim, dum ponto de vista prático, queria deixar duas indicações. A primeira é que a nossa fé não se funda, não se fundamenta numa abstracção, num ideal por mais bonito que seja, num conjunto de regras de comportamento, mas funda-se e fundamenta-se no encontro com este mistério do amor que se revela no coração de Cristo à humanidade. É daqui donde tudo parte; aqui está o coração da fé.
Em segundo lugar, só se acede a este amor através de uma experiência de vida, de quem o acolhe, de quem o vive e de quem o testemunha. É aquela experiência mística que fizeram os Pastorinhos e que fez Francisco ao associarem juntamente os dois corações, o Coração de Jesus e o Coração de Maria. Naturalmente o Coração de Jesus é o coração do Filho de Deus feito homem, Único; o coração de Maria é o reflexo materno do coração divino, do coração de Cristo e do coração de Deus, para nós também.
Hoje vivemos uma espécie de eclipse cultural de Deus. Temos a impressão que Deus desaparece da cultura e do horizonte dos homens, sobretudo por causa duma atitude de indiferença mesmo entre aqueles que se dizem crentes e cristãos. Muitos vivem como se Deus não existisse. Acreditam apenas na cabeça: dizem que Deus existe como dizemos que existiu D. Afonso Henriques. Mas Deus não está presente, não é fonte de vida, de amor e de dinamismo na sua vida.
Hoje precisamos de falar de um modo novo de Deus, que seja capaz de tocar directamente o coração humano, que seja capaz de seduzir o coração humano como seduziu o coração dos pastorinhos e de tantos de nós. Essa via chama-se a mistagogia. Não é pelos grandes discursos, nem mesmo pelas grandes homilias que se façam aqui em Fátima que passa esta experiência de Deus para os homens; é através da contemplação, do acompanhamento que ajuda a entrar neste mistério a pessoa inteira, corpo, alma, mente, coração, sentidos e sentimentos, razão e afecto. Por isso, esta devoção, esta festa ao Coração de Jesus tem uma sedução particular para poder falar directamente ao coração humano.
A festa, o culto ao Coração de Jesus, é um culto ao Amor eterno e santo com que Deus nos ama. É a expressão do nosso amor para com Deus e também do nosso amor para com os irmãos, englobados todos eles no coração de Deus.
Termino com uma citação do Papa João Paulo II que nos mostra bem esta beleza e esta riqueza da devoção ao Coração de Jesus como uma escola de mistagogia para viver a nossa fé:
“Unido ao coração de Cristo, o coração humano aprende a conhecer o sentido verdadeiro e único da vida e do próprio destino, a compreender o valor duma vida autenticamente cristã, a guardar-se de certas perversões do coração, a unir o amor filial para com Deus ao amor para com próximo. Assim, e é esta a verdadeira reparação pedida pelo Salvador, sobre as ruínas acumuladas do ódio e da violência poderá ser edificada a civilização do coração de Cristo que é a civilização do amor”!
+ António Marto, Bispo de Leiria-Fátima
Fonte: Diocese de Leiria Fátima | www.leiria-fatima.pt
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