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Louvor Perene - Nota Pastoral

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Celebrar, na nossa Arquidiocese, os 300 anos do Lausperene, em pleno Ano Sacerdotal, é um dom de Deus, uma graça especial que merece a atenção de todos: pastores e féis. Somos convidados a dar graças pela imensa riqueza que, ao longo de três séculos, a Igreja Arquidiocesana recebeu com a sucessiva e contínua celebração do Lausperene. Mas somos também convidados a pensar que a Eucaristia é para o Sacerdócio e o Sacerdócio para a Eucaristia. Dois mistérios, dois sacramentos que tiveram a sua origem na Quinta-Feira Santa, no Cenáculo em Jerusalém. Jesus, Único e Eterno Sacerdote, quis perpetuar a Sua acção santifcadora e salvífca através dos sacerdotes em Eucaristia. Estamos, pois, em atitude de jubilosa acção de graças, a que se junta uma refexão séria sobre o valor do Lausperene e do Sacerdócio.

As celebrações comemorativas devem, por isso, ser aproveitadas para uma maior consciencialização do valor e importância destas realidades de fé na vida dos cristãos e das comunidades. Sem este trabalho, tudo permanecerá na mesma, depois de iniciativas que apenas cansaram.

Que as considerações desta Nota Pastoral sejam um apelo para ousar aprofundar, mais responsavelmente, a doutrina da Igreja sobre estes dois sacramentos: Eucaristia e Sacerdócio. Por outro lado, a Palavra que queremos acolher nos acompanhe nesta refexão, revisão e aposta pastoral. Para que isto aconteça, deixo quatro ideias dum modo muito sintético. Aceitar as suas exigências pode provocar muitos comportamentos novos.

1º Breve síntese histórica

Os dados históricos afrmam-nos que o Lausperene começou na Arquidiocese no tempo do Arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles, e que esse Lausperene foi concedido pelo Papa Clemente XI em 12 de Outubro de 1709. O seu início foi na Quaresma do ano seguinte, faz precisamente 300 anos, mas só para a cidade de Braga.

No fnal do 3º Congresso do Apostolado da Oração, celebrado na cidade de Braga, de 15 a 19 Maio de 1957, foi aprovado um voto que estendeu a toda a Arquidiocese o Lausperene. O Congresso foi perpetuado no monumento dedicado ao Coração de Jesus, no Monte do Sameiro. Mas, o Arcebispo Primaz dessa altura, D. António Bento Martins Júnior, assumindo o que foi dito e aplaudido nas sessões do Congresso, quis um monumento vivo, que o voto fez nascer, e exprimiu-se deste modo: “O monumento que perpetuará a memória do Congresso do Apostolado é a instituição do Sagrado Lausperene nas igrejas de todo o Arcebispado”. E mais adiante afrmou: “Doravante, toda a Diocese será, pois, na roda do ano e perpetuamente um imponente coro perene de louvores, dia e noite, entoados em honra da Santíssima Eucaristia, cada peito um órgão sonoro, a Diocese toda uma Catedral em fervorosa oração de louvor, de agradecimento e de súplica a Nosso Senhor Jesus Cristo Sacramentado”. Assim nasceu na Arquidiocese, como uma Catedral em fervorosa oração, o Lausperene extensivo a todas as paróquias, igrejas e capelanias.

2º Centralidade eucarística na vida pessoal e comunitária

Os trezentos anos do Lausperene vêm recordar-nos, mais uma vez, a centralidade da Eucaristia na nossa vida pessoal e comunitária. Ela é o centro, o cume, a fonte, o lugar do sacrifício redentor e da nossa oferta com Ele.

O Papa João Paulo II afrmou-nos que a Eucaristia tem três pólos: “celebração, comunhão e sacrário”. Não há celebração completa sem comunhão, assim como a adoração nos deve levar a celebrar e a comungar melhor. A presença de Jesus na Eucaristia, reduzida em tempo mas rica em intensidade, prolonga-se na adoração. O sacrário, ou melhor, Jesus Eucaristia é, dizia o mesmo Papa: “um íman a atrair-nos”. E Bento XVI já nos recordou a sede que Jesus tem, no sacrário ou exposto na custódia, da nossa presença, da nossa amizade, da nossa oração, do nosso coração amigo. Cada uma destas dimensões exige um cuidado especial e implicam-se mutuamente. A realidade de hoje solicita três atitudes concretas para a vivenciarmos melhor, em compromissos que parecem diferentes mas conduzem, sempre, à maravilhosa certeza de Jesus que quis fcar e peregrinar connosco.

A celebração não é repetição dum rito; exige preparação e vivência interior. Não basta estar, mas devemos interrogar-nos sobre o modo como participamos e qual a razão de muitos se confessarem católicos sem esta exigência semanal, a participação da Eucaristia dominical. Há aqui um pormenor que as comunidades devem aceitar como exame de consciência. Não basta lamentar-se. Importa encontrar as causas e responder com acções concretas e efcazes.

A  comunhão deve ser constitutiva da celebração, mas exige determinadas condições que só o Sacramento da Reconciliação proporciona. Que a superfcialidade e a rotina não entrem nas nossas comunhões.

O sacrário é contínuo apelo para criar intimidade com Alguém que está e quer falar para nos encher da Sua vida, para nos convidar à Sua amizade, para corrigir ou para apontar caminhos novos. É esta presença que urge descobrir.

Penso ser oportuno reconhecer que se perdeu um pouco esta dimensão na vida dos cristãos e das comunidades. Façamos uma experiência de redescoberta.

3º Eucaristia, escola de caridade, fonte de amor e de serviço

Tomar a sério a Eucaristia é, por outro lado, perceber que ela é a renovação da Ceia que o Senhor celebrou, e deve tornar-se, sem cessar, escola de caridade, fonte de amor e de serviço. Se Jesus Se dá a nós e quis fcar connosco, é para nos ensinar a darmo-nos aos outros, a amá-los e a servi-los. A celebração, a comunhão e a adoração devem desencadear em todos, mas de um modo particular nos sacerdotes, homens do altar e da Eucaristia, uma entrega radical e generosa ao serviço dos irmãos. A Eucaristia deve ser vivida ao longo do dia, em atitudes de lava-pés, de dom, de serviço generoso.

Celebrar os 300 anos de Lausperene deve impulsionar-nos a viver um amor mais evangélico, um serviço mais universal e mais generoso, uma preocupação efcaz com os mais pobres, mais desprotegidos, mais sós, sem pão, sem casa, sem emprego, sem amor, sem Deus. A caridade vivida e o compromisso com o mundo devem ser o “monumento” que queremos deixar para as gerações futuras, a perpetuar este grandioso e solene jubileu.

A Eucaristia, como celebração ou adoração, nunca pode ser interpretada como momento de fuga das realidades familiares ou terrestres. Em Cristo, encontramos o Filho do único Deus que nos convida a viver em solidariedade e compromisso de transformação do mundo. Daí que a devemos revestir duma dinâmica nova na edifcação de famílias verdadeiramente cristãs e féis à sua genuína identidade, na corresponsabilidade de edifcarmos a Igreja, tornando-a Evangelho transparente, na solicitude mais concreta junto dos pobres e, particularmente, das novas e complexas formas de pobreza, no compromisso dentro dos diversos ambientes da sociedade hodierna onde Deus coloca os cristãos como “fermento” duma nova humanidade.

Nada deve ser mera devoção egoísta a corresponder a um gosto pessoal. Cristo quer ser o Salvador e libertador do mundo e faz-nos ver, se quisermos estar minimamente atentos, os caminhos que devemos percorrer para uma sociedade mais justa e fraterna.

São incompreensíveis certos comportamentos na vida quotidiana, por parte de cristãos que frequentam a Eucaristia ou, quem sabe, de sacerdotes. A Eucaristia é exigência de vida que se dá sem nada pretender, apelo à fraternidade e gratuidade e compromisso para um mundo mais solidário.

4º A Palavra ajuda a vivência eucarística

A nossa Arquidiocese tem como tema do Plano Pastoral a Palavra, e queremos todos: “Tomar conta da Palavra que toma conta de nós”. A Palavra de Deus viva e efcaz é que converte, alimenta, cura, liberta, faz crescer na fé. Ela deve ser contínua fonte de oração, de meditação, de lectio divina, de refexão em exame de consciência diário, etc. A Palavra deve, por isso, ser fonte da nossa adoração, para, através dela e com ela, louvarmos, agradecermos, repararmos Jesus Eucaristia. Ler, meditar ou escutar a Palavra diante d’Ele, que é a Palavra, deve ser o subsídio primordial para a adoração, substituindo alguns livros de devoções que, sem conterem erros, podem não corresponder a esta centralidade que a Palavra de Deus deve ter em toda a vida da Igreja.

Partir da Palavra conduz, ou deve conduzir, a uma atitude humilde de conversão, de desejo de mudança de vida, de caminhada de santidade. A Palavra tem sempre algo de particular e adequado a comunicar para os momentos da vida.

A própria celebração, em que temos a mesa da Palavra e a mesa Eucarística, convida a um redobrado cuidado na preparação das homilias e da atenção que lhe devemos dedicar. A integração das Laudes e das Vésperas, quer na celebração, quer na adoração, é um modo eloquente de louvarmos o Senhor com a sua Palavra em Eucaristia celebrada e adorada.

5º Sacerdotes contemplativos para uma pastoral com sentido

O Santo Cura d’Ars, cujos 150 anos da morte deram origem à celebração deste Ano Sacerdotal, é modelo para todos os sacerdotes, vivenciando tempos de adoração eucarística, estando de joelhos diante de Jesus no sacrário, dinamizando de um modo mais profundo e mais orante o Lausperene nas paróquias. Os sacerdotes, se souberem ser verdadeiros adoradores, gastando tempo com Jesus Eucaristia, na adoração recolhida, serão modelos vivos para os féis, para todas e cada uma das comunidades. Precisamos de sacerdotes que centrem, mais e mais, a sua vida no mistério eucarístico, não só na celebração, mas também na adoração. Homens de adoração para que a sua vida, como Jesus, e com Jesus, seja dom contínuo e generoso para os outros. Homens que, adorando Jesus Eucaristia, aprendam a ser bons pastores e bons samaritanos, prontos a dar a vida pelos irmãos, exercitando a caridade pastoral.

O Ano sacerdotal encerra diversas interpelações para que o padre seja fel como Cristo foi. A adoração quotidiana, uns momentos de preparação e acção de graças das eucaristias nunca signifcam perda de tempo para os sacerdotes. Coloquemos na adoração os nossos paroquianos e muita coisa mudará.

6º Exemplos vivos a desafiar-nos

Desde sempre, na nossa Arquidiocese, houve féis e pastores que se empenharam pelo culto da Eucaristia. Foram muitos e em todos os lugares. Não queria, contudo, terminar esta Nota Pastoral sem chamar a atenção para dois modelos maravilhosos que podem estimular a nossa vida e devoção eucarística.

Refro-me em primeiro lugar à nossa Beata Alexandrina Maria da Costa, de Balasar, verdadeira mística da Eucaristia, que é dom precioso para todos e modelo ímpar de amor à Eucaristia, cuja vida e escritos são conhecidos por milhares de cristãos em diversos países. A sua experiência de viver da Eucaristia deve apaixonar-nos a conhecer melhor a sua vida e a acreditar que, com Jesus Eucaristia, tudo tem sentido. A sua intercessão, nas nossas preces, pode oferecer-nos o dom de milagres necessários para a sua canonização.

Depois, entre muitos outros que podíamos citar aqui, quero só referir o Rev.º Padre Abílio Gomes Correia, o célebre pároco de São Mamede d’Este, apóstolo da Eucaristia, sacerdote apaixonado por Jesus Eucaristia, que vivia centrado no sacrário da sua paróquia e levava os féis a imitar a sua intensa devoção.

Com os seus 25 anos de idade, e sem estruturas materiais nem apoios humanos, voltou-se para o Santíssimo Sacramento, devoção que sempre o atraiu. Em S. Mamede d’Este, o seu carisma eucarístico desenvolveu-se a ponto de se identifcar espiritualmente com a Eucaristia, que celebrava com fervor e adorava continuamente. Aos 75 anos, num momento de emoção que não conseguiu controlar, deu a conhecer que apenas dormia 3 horas por dia, dedicando toda a sua vida ao Santíssimo, quer adorando-O, sobretudo durante a noite, quer difundindo esta devoção, principalmente através da revista mensal “Mensageiro Eucarístico”.

O fruto da sua total doação ao sacrário foi extraordinário na paróquia e no país; na paroquia fundou as obras eucarísticas que a transformou radicalmente e dali irradiaram; na Diocese, foi ele o dinamizador dos grandes Congressos Eucarísticos – Diocesanos e Nacionais – da década de 1920; e no país inteiro fundou associações eucarísticas que mudaram a vida religiosa de inúmeras comunidades cristãs.

Quem estuda a vida deste sacerdote bracarense não pode deixar de fcar impressionado com o modo como viveu a sua longa vida. Pessoa humanamente bem dotada – física e intelectualmente – sentia-se plenamente realizado nos seus muitos trabalhos e obras grandiosas que implementou. Desenvolveu extraordinariamente as virtudes humanas e cristãs, contagiando quem o conheceu.

Daí que S. Mamede d’Este, ainda agora, passados quase 50 anos depois da sua morte, continua a conservar a religiosidade eucarística que recebeu do P.e Abílio. E ele, que foi recebido com indiferença e desdém quando lá chegou, repousa no meio dos seus amados paroquianos, sepultado em fores e sempre vivo no coração de todos.

O processo de canonização do P.e Abílio Correia encontra-se em Roma e todos esperamos que a Santa Sé o proclame ao mundo como modelo de fé eucarística, tal como faz com o santo Cura D’Ars, cuja imagem o P.e Abílio sempre teve na mesa de trabalho e cujas virtudes procurou imitar. Recordemo-lo nas nossas preces e imitemo-lo na nossa vida.

Que estes dois exemplos, entre muitos outros, nos estimulem a todos a celebrar, a comungar e a viver em adoração, com coração humilde, mas apaixonados por Jesus.

Conclusão: um verdadeiro programa diocesano

Este Ano Sacerdotal, celebrando os 300 anos de Lausperene Diocesano, tem que nos comprometer. Deixo aqui algumas sugestões, pedindo a todos generosidade e empenho para as colocarem em prática.

– Que os Seminários sejam locais de aprendizagem frequente de tempos de adoração, de modo que os seminaristas aprendam a rezar a Jesus Eucaristia e a dar-Lhe as suas vidas e seus corações. Que a Palavra de Deus alimente e oriente estes momentos.

– Que cada paróquia se esforce por ter dois dias de Lauspere, na medida do possível de acordo com o esquema diocesano, para que, ao longo de cada ano, se viva em contínuo e perene louvor; não sendo possível, opte-se por outro momento que ajude a rever e a recentralizar a pastoral.

– Que as comunidades religiosas e as casas dos Institutos Seculares saibam ser centros vivos de oração eucarística que alimente a vida de muitos cristãos que vivem junto delas ou as visitam. Para estes momentos sejam convidados os amigos ou aqueles para quem trabalham, como momentos de encontro fraterno e escola de adoração.

– Que se multipliquem, por toda a Arquidiocese, as Horas Santas ao longo do ano, sobretudo nas Quintas-feiras, pedindo pela santifcação do clero e também o dom de mais vocações, e nas primeiras Sextas-Feiras para louvar e reparar o Coração Eucarístico de Jesus.

– Que nas sedes dos Arciprestados, sobretudo em dias de mais afluência de pessoas, se dinamize a presença de sacerdotes que acolham os penitentes para a celebração do Sacramento da Reconciliação, preparando-os para a vivência da Eucaristia. Que na mesma igreja o Santíssimo esteja exposto para proporcionar este encontro com Jesus Eucaristia.

– Que não se descure, mas pelo contrário, se desenvolva a visita aos doentes, ajudando-os, sempre que possível, a receber a sagrada comunhão que deverá ter momentos de preparação e acção de graças.

– Que os santuários espalhados pela Arquidiocese sejam lugar de adoração eucarística, convidando os féis a tempos fortes de oração, diante de Jesus sacramentado. Também aí se reveja o programa do Sacramento da Reconciliação com horários determinados.

– Que o amor do coração de cada sacerdote e das suas comunidades, por Jesus Eucaristia, saiba inventar modos de fazer da nossa Arquidiocese a “catedral em fervorosa oração de louvor”.

Que a celebração dos 300 anos de Lausperene, em Ano Sacerdotal, seja dom e graça para todos, dum modo particular para os sacerdotes. Que seja fonte de oração, conversão, e santidade de vida centrada em Jesus Eucaristia.

Braga, 2 de Fevereiro de 2010 
Festa da Apresentação do Senhor
† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

Vídeo com a Nota Pastoral de D. Jorge OrtigaLouvor Perene - Texto integral em PDF

Fonte: Arquidiocese de Braga | www.diocese-braga.pt